Domingo, 16 de junho de 2024

Populistas de plantão

A forma como agimos e os porquês das nossas escolhas foram sendo progressivamente escrutinados a partir dos estudos sobre o comportamento humano e do desenvolvimento de variados campos da psicologia”. Um dos pensadores que primeiro intuiu o poder do autointeresse, foi Adam Smith. É clássica a frase do pai da economia moderna afirmando que “não é da benevolência do padeiro, do açougueiro ou do cervejeiro que eu espero que saia o meu jantar, mas sim do empenho deles em promover seu autointeresse”. O pensamento de Smith viria a ter enorme prestígio sobre a corrente econômica liberal, sendo mais tarde confrontado pelo materialismo histórico de Karl Marx, outro pensador de extraordinária influência política e econômica. Marx, diferente de Smith, não acreditava na “mão invisível” dos mercados, mas numa visão de propriedade comum “de cada qual segundo a sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades”, prenunciando o contraponto central que iria segregar as duas doutrinas. Essa cisão de pensamentos, lapidada pelo tempo e enriquecida por outras abordagens segue influenciando, no mundo todo, as esferas social, política e econômica, com impacto e relevância que desafiam o tempo. Após o planeta servir, durante décadas, de laboratório para essas teorias, a polêmica ganhou novos atores, com a crise de 1930 notabilizando o intervencionista John Keynes e, na sequência, consagrando Milton Friedman, economista liberal de cunho monetarista que confrontava Keynes, isso tudo no momento em que a economia passava a adquirir contornos inéditos de tamanho e complexidade, com a ascensão da robótica e a rápida integração dos mercados.

Sendo a economia um campo de avanços teóricos notáveis, não deixa de ser curioso que algumas questões, como a maior ou menor intervenção estatal, continue irreconciliável até hoje. Por trás desse confronto conceitual e metodológico, não mais perdura somente o autointeresse dos indivíduos como propulsor seminal dos mercados, mas emerge a ideologia, que passa a dividir o mundo, teimosamente sob os hoje já arcaicos conceitos de direita e esquerda, cada qual com sua visão do papel do Estado e, por consequência da maior ou menor participação governamental na economia. São vários os exemplos que demonstram continuarmos a testemunhar as mesmas premissas que dividiram Smith e Marx, Keynes e Friedman, perpetuarem-se no tempo, desafiando liberais, progressistas e conservadores numa discussão que nada tem de banal. A contenda, muito mais do que vinculada a algum tipo de perversidade ou desvio moral, decorre de compreensões diametralmente opostas sobre a dinâmica dos mercados capitalistas, com uma questão basilar ainda não superada, ao modo do dilema do “ovo ou a galinha”. De maneira mais explícita: é possível gastar antes de poupar? É possível uma política de investimentos sem primeiro formar uma poupança para tal? É preciso respeitar o teto de gastos? Qual a importância da responsabilidade fiscal? Cada uma das diferentes correntes de pensamento responderá resolutamente sobre o melhor caminho.

Apesar de reconhecer a falta de um consenso unificador e universal quando o assunto é austeridade ou gastança pública, há robustas evidências de que uma ação fiscal frouxa desorganiza toda a estrutura econômica. Políticas econômicas populistas, independente da matriz ideológica, estão na raiz do problema e já condenaram milhões à miséria. Erros colossais na alocação do escasso capital e o inchaço das máquinas públicas provocam danos irreparáveis, cabendo invariavelmente a governos mais austeros realizar o difícil trabalho de reconstrução dos fundamentos econômicos, por vezes com alto preço político. Acreditando que é possível gastar sem poupar, desdenhar da austeridade e acabar com a miséria imprimindo moeda, os populistas de plantão continuam a destruir riquezas. Esse grave erro de entendimento macroeconômico tem provocado um círculo interminável de equívocos que impedem ciclos mais duradouros e consistentes de desenvolvimento.

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