Sexta-feira, 10 de abril de 2026

Por que Trump voltou a atacar o Pix, sistema de pagamentos brasileiro — e o que os Estados Unidos podem fazer

Os Estados Unidos voltaram a criticar o Pix, sistema de pagamentos instantâneos criado pelo Banco Central, ao citá-lo em um relatório divulgado em 31 de março que lista o que o governo norte-americano considera barreiras comerciais impostas por cerca de 60 países a empresas dos EUA. As informações foram divulgadas pela BBC.

O documento foi elaborado pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), órgão responsável pela política comercial americana. Trata-se do mesmo órgão que abriu, em julho de 2025, uma investigação para apurar se o Pix pode ser enquadrado como uma “prática desleal” de mercado.

Ao longo das mais de 500 páginas do relatório “National Trade Estimate Report 2026”, o Pix é mencionado três vezes. Em um dos trechos, o documento afirma que o Banco Central do Brasil “criou, detém, opera e regula” o sistema, e que partes interessadas dos Estados Unidos manifestaram preocupação com um possível tratamento preferencial ao Pix, o que poderia prejudicar empresas estrangeiras do setor de pagamentos eletrônicos.

O relatório também aponta que instituições financeiras com mais de 500 mil contas são obrigadas a oferecer o sistema, o que, na visão americana, poderia limitar a concorrência com serviços como plataformas digitais e operadoras de cartões de crédito internacionais.

Apesar das críticas, a investigação conduzida pelo USTR segue em andamento, sem prazo definido para conclusão.

Após a divulgação do documento, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o Brasil não pretende alterar o funcionamento do Pix por pressão externa. Segundo ele, o sistema é uma ferramenta consolidada e continuará sendo aprimorado para ampliar o acesso da população a serviços financeiros.

Possíveis medidas

Especialistas em comércio exterior ouvidos pela BBC avaliam que os Estados Unidos não têm jurisdição para interferir diretamente no funcionamento do Pix. Eventuais medidas, portanto, ficariam restritas ao campo comercial.

Entre as possibilidades estão a imposição de tarifas sobre produtos brasileiros, restrições a exportações ou até a revisão de benefícios concedidos ao Brasil em programas como o Sistema Geral de Preferências (SGP), voltado a países em desenvolvimento.

O relatório do USTR, no entanto, vai além do Pix. Também menciona temas como tarifas sobre o etanol americano e questões ambientais, incluindo o desmatamento, que, na avaliação dos EUA, poderiam gerar vantagens competitivas para exportadores brasileiros.

Contexto internacional

A intensificação das críticas ocorre em meio a um cenário mais amplo de tensões comerciais. Segundo a BBC, o diálogo entre Brasil e Estados Unidos vinha se intensificando desde um encontro entre Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump nos bastidores da Assembleia-Geral da ONU, em Nova York, no ano passado.

Uma das hipóteses levantadas por fontes ouvidas é que o endurecimento do discurso esteja relacionado a divergências recentes na Organização Mundial do Comércio (OMC). O Brasil, por exemplo, se posicionou contra a prorrogação de uma moratória sobre tarifas aplicadas a transmissões eletrônicas, tema de interesse dos Estados Unidos.

Além disso, o governo americano enfrentou um revés judicial em fevereiro deste ano, quando a Suprema Corte limitou o uso de uma lei que vinha sendo utilizada para justificar a imposição de tarifas comerciais.

Soberania e repercussão política

No Brasil, o tema tem sido explorado pelo governo federal como um elemento de defesa da soberania nacional. Integrantes da gestão avaliam que as críticas ao Pix reforçam a importância de manter autonomia em políticas econômicas e tecnológicas.

A repercussão também alcançou o cenário político interno. O deputado Lindbergh Farias criticou o que chamou de “silêncio” de adversários políticos diante das críticas americanas ao sistema. Segundo ele, o Pix tem papel relevante na inclusão financeira e na facilitação de pagamentos no país.

Criado em 2020, o Pix se consolidou como um dos principais meios de pagamento no Brasil, com ampla adesão da população e das instituições financeiras, tornando-se referência internacional em sistemas de transferências instantâneas.

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