Quarta-feira, 29 de julho de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 29 de julho de 2026
Símbolo da campanha eleitoral o preço da picanha chegou a cair no começo do governo Lula, não pela política econômica e, sim por causa do ciclo pecuário. Em 2022, na disputa ao Planalto, com o poder de compra pressionado (pelos efeitos da pandemia e da guerra na Ucrânia) e a inflação em alta (o IPCA – Índice de Preço ao Consumidor Amplo – em abril de 2022 acumulou alta de 12,1% em 12 meses) o churrasco virou artigo de luxo.
Colocar a carne, e principalmente o corte nobre, na mesa do brasileiro se tornou tema recorrente do debate político. Mas esse ano, com novo movimento de alta na pecuária, o discurso pode mudar de lado. Não pelas questões econômicas, como o endividamento das famílias, mas principalmente pelo que acontece no campo.
Levantamento exclusivo feito pela consultoria Safras & Mercado mostra que o preço da picanha, deflacionado pelo IPCA, fechou o mês de junho custando R$ 85,10 o quilo. Na comparação com junho de 2025 o avanço chega a 21%, em 12 meses, em valores deflacionados.
A análise, feita a partir de dados de janeiro de 2023, mostra que a picanha atingiu o valor mais alto da série em janeiro desse ano: R$ 85,59 o quilo. A promessa de carne bovina mais acessível realmente aconteceu. Mas o movimento de baixa não tem relação com a política de preços, mas com o próprio ciclo da pecuária.
A virada de ciclo produtivo nas fazendas
No primeiro ano após o pleito os preços da carne bovina começaram a cair, em variações abaixo do IPCA, porque coincidiu com o fim do “ciclo de alta” nas fazendas. Quando os preços do boi gordo estão bons os pecuaristas aumentam os investimentos na produção de bezerros e animais para reposição.
O ciclo pecuário “vira” quando os preços desses animais de reposição começam a cair. Desestimulados os criadores abatem as fêmeas, as reprodutoras. Assim aumenta a oferta de carne no mercado interno que pressiona os preços. Entre 2023 e 2024 auge no abate de fêmeas, o churrasco realmente ficou mais acessível.
Segundo dados do Departamento de Agricultura dos EUA, o consumo doméstico de carne bovina no Brasil cresceu 7,8%, entre 2022 e 2023, e mais 2,0% em 2024. Chegou a 38 quilos por pessoa, o maior desde 2014, de acordo com dados da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento). Em 2025, com o aumento dos preços o consumo recuou 9%, passou para 31,9 quilos por pessoa.
Um fôlego na alta com a ausência da China
Apesar da tendência de novas altas para carne o mercado externo também deve influenciar, pontualmente.
A desaceleração nas vendas de carne bovina para a China, com o esgotamento da cota 2026, e a expectativa de uma maior oferta de animais saindo dos confinamentos tendem a aumentar a oferta de carne no mercado interno, desacelerar a alta e até registrar algum recuo durante nova corrida eleitoral. Mas será algo pontual.
Esse “respiro” pode ser visto no varejo. Levantamento da Apas (Associação Paulista de Supermercados) mostra que o quilo da picanha recuou 0,55% em junho, em São Paulo. “A alta nos preços das carnes vai se manter por causa da oferta restrita, a redução do rebanho, e a escassez de gado e carne no mercado”, completa Fernando Henrique Iglesias, especialista do Safras & Mercado.
Para o analista de pecuária Hyberville Neto “agora, com o ciclo pecuário em fase de contração de oferta, e preços reais da carne bovina ultrapassando os índices de inflação, o corte que virou símbolo de acessibilidade pode se tornar argumento oposto no debate eleitoral de 2026″.