Terça-feira, 20 de janeiro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 19 de janeiro de 2026
Foi-se o tempo em que as adolescentes pediam festa de presente aos 15 anos. A moda entre as jovens, agora, é pedir um “bocão”. Embora a tendência seja considerada inofensiva por muitos responsáveis, ela envolve não só questões éticas, mas de riscos à saúde. Entre eles está o aumento de casos, pouco conhecidos e subnotificados, de infecções por contaminação durante o procedimento e isquemias com necrose, levando à perda de tecidos.
Professora do curso de pós-graduação em Dermatologia da Afya Educação Médica no Rio, a dra. Thais Barcellos faz um alerta sobre a crescente procura por procedimentos estéticos por meninas nessa faixa etária. Segundo a médica, há um grande grupo de profissionais “vulgarizando” os tratamentos, realizando intervenções desnecessárias, utilizando produtos sem licença pela Anvisa e que, muitas vezes, chegaram pela fronteira ou são até falsificados.
Para a dermatologista, que também é mãe de uma adolescente, esse fenômeno está ligado ao fato de essa geração ter uma vida social mais intensa, em consequência da abertura após a pandemia.
“A cada dia chegam mais meninas ao consultório com a boca bonita e volume normal, muitas vezes acompanhadas das mães, querendo aumentar os lábios sem indicação. Tenho recusado cada vez mais atendimentos. O que observo é uma pressão social muito grande: elas querem a make perfeita, o visual perfeito. Tudo isso é potencializado pela socialização via internet. Como a jovem vai postar uma foto fazendo biquinho se o lábio dela for mais fechadinho?”, exemplifica.
A professora explica que há situações com indicação para preenchimento em pessoas mais jovens, como em casos de retrognatismo – quando a mandíbula fica mais recuada, afetando a harmonia facial e a mordida – ou em situações em que a falta de lábio ocasiona uma dificuldade de se fechar a boca. Entretanto, na maioria das vezes, a indicação é mais comum a partir dos 40 ou 50 anos de idade, quando a pessoa começa a perder massa na região dos lábios, podendo até afetar a dicção com o tempo.
“Há também situações em que a pessoa morde a boca por dentro quando está comendo e aí, faz sentido o preenchimento, mas é só uma seringa!”, alerta.
Para as situações em que houver indicação de preenchimento labial, o recomendado é optar por linhas específicas, mais leves, à base de ácido hialurônico, por exemplo, que são produtos mais suaves para a mucosa oral. Elas possuem duração de aproximadamente 10 meses e os protocolos podem ser refeitos um ano depois. São produtos que causam um inchaço no início, mas que depois de 30, 40 dias, deixam um efeito mais natural.
Ácido hialurônico
A dermatologista Juliana Piquet, do Rio de Janeiro, alerta sobre possíveis consequências indesejadas após o uso de ácido hialurônico desde cedo. “Embora seja um material absorvível, o uso repetido ao longo dos anos, especialmente em grandes volumes, pode provocar distensão dos tecidos e alteração da arquitetura labial, dificultando procedimentos corretivos no futuro. Também existe o risco de se estabelecer uma dependência estética precoce, com intervenções sucessivas sem real indicação médica”, pondera.
Em relação a uma possível interferência na composição óssea dos adolescentes, Juliana Piquet explica que o ácido hialurônico não afeta diretamente o crescimento.
“No entanto, a face continua em desenvolvimento dos 18 aos 21 anos, aproximadamente. Intervenções precoces podem mascarar ou desarmonizar a evolução natural das proporções faciais. Além disso, não existem estudos de longo prazo que avaliem o impacto do uso de preenchedores em adolescentes, o que exige cautela quando se considera qualquer procedimento estético nessa fase”, ressalta.
A médica Thais Barcellos chama ainda a atenção para a proliferação de perfis que exibem o antes e o depois de pacientes, o que muitas vezes levam o público a uma falsa percepção de que os procedimentos não apresentam riscos.
“Estamos observando o aumento de tuberculose cutânea. O bacilo, quando inocula na pele, desenvolve a doença na forma cutânea e é necessário tratamento e acompanhamento médico por um longo período. Se ocorrer isquemia, são necessários procedimentos clínicos para reverter o quadro o quanto antes, a fim de evitar a evolução com necrose e a perda definitiva de tecido”, explica a professora da Afya Educação Médica.