Domingo, 22 de fevereiro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 22 de fevereiro de 2026
Bora refletir sobre um dos maiores males da atualidade? Ah, ficou curioso, né? Eu explico: a superficialidade.
Para ser bem sincera, eu não tenho dúvida ALGUMA de que esse é um dos grandes problemas da contemporaneidade. Começarei exemplificando. Na minha última coluna em O Sul, a chamada de capa estampava a frase: “Perdeu os filhos porque é puta.” A frase era deliberadamente provocativa. Não era um julgamento, mas a denúncia de um julgamento — uma crítica à mentalidade cruel que responsabiliza uma mulher em luto pela violência que sofreu. O texto inteiro desmontava exatamente essa lógica. Ainda assim, muitas pessoas reagiram apenas à capa. Sem abrir o artigo. Sem ler a argumentação. Sem perceber que a frase não expressava uma posição, mas expunha uma perversidade social.
A manchete foi tomada como sentença.
Aquele episódio revelou algo maior do que uma simples polêmica editorial: revelou o quanto nos acostumamos a decidir antes de compreender. Para uma pessoa como eu, que exercita, por anos, a atitude de NÃO JULGAR, confesso que se trata de um desafio. No meu caso, eu tenho plena consciência disso. Mas e a enorme massa de pessoas que sequer sabem o quão manipuladas são ao lerem as “notícias”? (“notícias” eu botei entre aspas, porque a maior parte do que vemos é apenas especulação – ou coisa pior).
Vou parar tudo para contar uma história. Em janeiro de 2000, estive, pela primeira vez, em Barcelona. No tour turístico, visitei o Museu Pablo Picasso. E o que vi mudou minha vida.
Não foi a arte, o talento. Nada disso, Foi a jornada do artista.
Olha que louco. Se você admirar as primeiras obras de Picasso, elas eram absolutamente clássicas. Desenhos como todos os demais que você vê de artistas de rua. A tentativa de representação da realidade. Porém, na medida em que esse homem estudou, treinou, exercitou, absorveu conhecimento… tudo mudou. Depois que ele domina o básico, ele se permite pensar além. Ele sai da caixa. Ele vira… um dos maiores gênios que a humanidade conheceu! E essa é a ENORME lição do Museu Picasso: não se trata da arte, mas da jornada para alcançar a maestria.
O enorme problema – ENORME – é que vivemos uma era em que o impacto substituiu o aprofundamento. A leitura integral foi trocada pelo escaneamento rápido. O contexto perdeu espaço para o recorte. A interpretação cedeu lugar à reação. Não se trata apenas de uma mudança cultural: trata-se de uma transformação cognitiva. E o preço disso? Ah, é alto.
Pesquisas em psicologia cognitiva e comunicação vêm demonstrando que a exposição contínua a conteúdos fragmentados e altamente estimulantes está associada à diminuição da atenção sustentada. Quando consumimos predominantemente vídeos curtos, manchetes sensacionalizadas e comentários rápidos, treinamos o cérebro para responder de forma imediata, e não para sustentar raciocínios longos. O cérebro é plástico: ele se adapta ao padrão que repetimos.
A leitura profunda, por sua vez, ativa o córtex pré-frontal (responsável por planejamento, análise e controle de impulsos), além do hipocampo, que consolida a memória e estabelece conexões complexas entre ideias. A chamada rede de modo padrão, associada à introspecção e à construção de sentido, também é mobilizada quando mergulhamos em narrativas densas. Como explica a neurocientista Maryanne Wolf, o cérebro leitor não nasce pronto – ele se desenvolve a partir do treino contínuo da leitura complexa.
Quando esse treino diminui, algo muda. Não é uma decadência moral, nem falta de inteligência, mas, sim, a ausência de um hábito cognitivo. Se treinamos a nossa mente para estímulos rápidos, tornamo-nos eficientes na rapidez e menos tolerantes à complexidade. A superficialidade deixa de ser exceção e passa a ser padrão. Quer testar: experimenta assistir um seriado sem conferir o celular uma única vez. Ah, pois então…
Talvez seja por isso que a paciência para atravessar um texto inteiro esteja cada vez mais rara. E talvez seja por isso também que o julgamento apressado tenha se tornado quase reflexo. O problema, do ponto de vista macro, é enorme: muita gente rasa com opinião não apenas insuficiente, mas, pior! Opinião prejudicial. Aí, se você não tem uma estrutura forte, o estrago está feito.
Ou seja, a cultura da manchete não afeta apenas o jornalismo: ela molda a forma como julgamos pessoas e fatos. Um vídeo de trinta segundos basta para definir reputações. Uma frase destacada substitui uma trajetória inteira. Um episódio isolado passa a ser identidade definitiva. A simplificação é sedutora porque exige menos esforço cognitivo. Compreender exige tempo, comparação de perspectivas, suspensão do impulso imediato.
Estudos publicados na revista Science indicam que a leitura de ficção literária fortalece a chamada “teoria da mente”, ampliando a capacidade de compreender estados mentais e emocionais de outras pessoas. Narrativas complexas treinam o cérebro para lidar com ambiguidade e múltiplas camadas de interpretação. Quando esse exercício se enfraquece, cresce a tendência ao pensamento binário, que divide o mundo em categorias rígidas e confortáveis.
Esse padrão tem consequências políticas evidentes. Democracias dependem de cidadãos capazes de sustentar ambiguidade, analisar argumentos e tolerar divergências. Quando a cultura pública se organiza em torno de manchetes e recortes virais, o debate tende a se reduzir a slogans. O adversário vira caricatura, a discordância vira ameaça e o julgamento substitui a investigação. Resultado? Derrota para todos.
Não se trata de demonizar redes sociais nem de idealizar um passado romântico de leitores disciplinados. Trata-se de reconhecer que a qualidade da vida pública está diretamente ligada à QUALIDADE do nosso repertório. Repertório não é exibição intelectual: é estrutura mental. Só escolhe com autonomia quem conhece alternativas. Só argumenta com consistência quem foi exposto a ideias divergentes. Só resiste à manipulação quem desenvolveu densidade suficiente para desconfiar de simplificações excessivas.
A experiência daquela manchete foi um experimento involuntário sobre o nosso tempo. Mostrou o quanto estamos inclinados a reagir antes de compreender e a concluir antes de examinar. Eu não julgo quem apenas reagiu. Porém, se fazemos isso com um artigo, é provável que façamos o mesmo com decisões públicas, propostas políticas e pessoas reais.
Talvez o problema não seja a existência de manchetes provocativas. O problema pode ser a nossa crescente indisposição para ir além delas. A superficialidade não é apenas um traço cultural; é um hábito mental que estamos reforçando diariamente. E hábitos mentais moldam sociedades!
Se queremos uma política menos histérica e mais madura, menos baseada em slogans e mais fundada em argumentos, precisamos recuperar a disciplina da profundidade. Isso começa com um gesto simples e radical: ler além do título. O que é essencial, porque uma sociedade que se acostuma a decidir pela manchete corre o risco de votar pelo slogan, julgar pelo recorte e governar pela emoção. O ponto nevrálgico é que nenhuma democracia se fortalece sob esse regime de superficialidade treinada. A solução? Em tempos de redes sociais, leia livros. Eu falo isso, reiteradamente, mas ninguém me ouve. Talvez, sei lá, escrevendo… entendam.
Não se trata apenas de uma questão intelectual ou política, tá? Mas, sim, de uma questão prática e profundamente pessoal. O repertório cultural amplia a visão de mundo, mas muito mais que isso: também amplia a visão que temos de nós mesmos. Ele impacta diretamente a vida profissional, a capacidade de comunicação, a autoridade percebida e até a autoestima. Quem lê mais, assiste a obras densas, estuda história e filosofia, desenvolve uma habilidade rara no mercado contemporâneo: a de sustentar uma conversa consistente sem recorrer a frases prontas. Isso muda tudo.
Em ambientes profissionais, repertório é diferencial competitivo! Ele permite estabelecer conexões inesperadas entre temas, argumentar com segurança, interpretar cenários com maior sofisticação e dialogar com públicos diversos. Lideranças sólidas raramente são superficiais. Elas têm bagagem, têm referências, têm comparação histórica. Conseguem enxergar além do imediato porque não vivem presas ao imediato.
Existe, inclusive, pesquisa em psicologia organizacional indicando que indivíduos com maior exposição cultural e leitura frequente tendem a apresentar melhor capacidade de resolução de problemas complexos e maior flexibilidade cognitiva. Isso se traduz em inovação, pensamento estratégico e tomada de decisão mais equilibrada. Em outras palavras: repertório gera competência.
Porém, ATENÇÃO. Há algo ainda mais sutil. Quando ampliamos nosso repertório, ampliamos nossa linguagem. E a linguagem molda o pensamento. Uma pessoa que domina mais palavras domina mais nuances emocionais, mais possibilidades de interpretação, mais formas de se posicionar. Isso fortalece a autoestima porque reduz a insegurança intelectual. Quem tem repertório não teme debate; participa dele.
A superficialidade, ao contrário, gera fragilidade. Ela cria dependência de narrativas alheias, insegurança diante de questionamentos e dificuldade de sustentar argumentos sob pressão. É muito mais fácil reagir do que elaborar — mas é a elaboração que constrói autoridade.
Talvez por isso o investimento em repertório seja também um investimento em autonomia pessoal. Ler, estudar, assistir a filmes complexos, frequentar ambientes culturais não é luxo; é treino mental. É fortalecimento interno. É expansão de horizonte.
Em um mundo que recompensa velocidade, profundidade se torna um diferencial silencioso. E em um mercado saturado de opiniões, consistência intelectual se destaca.
Se a superficialidade se tornou um dos grandes problemas da contemporaneidade, o antídoto não está em discursos inflamados, mas em disciplina cultural. Não está em mais comentários, mas em mais leitura. Não está em mais reação, mas em mais reflexão. Afinal, repertório não apenas fortalece democracias, mas fortalece indivíduos. E indivíduos fortes constroem sociedades mais maduras.
No fim das contas, superficialidade pode até gerar aplauso rápido, mas não sustenta trajetória longa. Quem vive de manchetes dificilmente escreve a própria história com profundidade. Repertório é escolha. É disciplina. É responsabilidade consigo mesmo. Em tempos em que tudo convida à distração, optar por profundidade é quase um ato de rebeldia intelectual. Aí eu jogo para vocês: queremos ser espectadores de narrativas rasas ou protagonistas de uma vida construída com densidade?
Ali Klemt
@ali.klemt