Segunda-feira, 15 de julho de 2024

Publicamente o general Paulo Sérgio Nogueira assegurou que confiava no sistema de votação

Um dia depois de endossar o discurso contrário ao sistema eleitoral em uma reunião com a cúpula do governo Bolsonaro — encontro que, segundo a Polícia Federal (PF), “revela o arranjo de dinâmica golpista” que orbitava o ex-presidente —, o ex-ministro da Defesa Paulo Sérgio Nogueira adotou tom oposto ao participar de uma audiência pública na Câmara dos Deputados.

Enquanto a portas fechadas e junto dos aliados mais próximos, ele classificava a participação das Forças Armadas em uma comissão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) como estar na “linha de contato com o inimigo”, publicamente o general assegurou que confiava no sistema de votação. Pouco mais tarde, no Senado, compartilhou com os parlamentares que ficava “chateado” ao ler que atacava a democracia.

Na última sexta-feira, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes retirou o sigilo do vídeo da reunião ministerial do dia 5 de julho de 2022 no Palácio do Planalto. A gravação foi considerada peça central para montar a operação Tempus Veritatis, deflagrada pela PF um dia antes contra Bolsonaro e figuras de seu entorno. O encontro foi marcado pela discussão de uma “alternativa” a ser executada antes das eleições caso o TSE não acatasse as sugestões do governo para as urnas eletrônicas.

Naquele dia, o general Paulo Sérgio Oliveira pediu a palavra e fez um longo discurso. Ele explicou a atuação das Forças Armadas na Comissão de Transparência das Eleições (CTE), criada em 2021 pelo TSE, e abriu fogo contra o tribunal:

“O que eu sigo nesse momento é apenas na linha de contato com o inimigo (…). Vou falar e muito claro: a comissão é para inglês ver. Nunca sentou numa mesa e discutiu uma proposta”.

Na avaliação da Polícia Federal, que consta na decisão de Alexandre de Moraes que autorizou a operação, as falas do general na reunião demonstram sua desconfiança em relação ao TSE e “admite que a atuação das Forças Armadas para ‘garantir transparência, segurança, condições de auditoria’ nas eleições tinha a finalidade de reeleger o então presidente Jair Bolsonaro.

As falas na reunião, porém, contrastam com o que o oficial afirmou apenas um dia depois do encontro. Na Comissão de Relações Exteriores da Câmara, ele disse que as sugestões das Forças Armadas ao TSE tinham “espírito colaborativo”.

“Não se está duvidando ou achando isso ou aquilo outro (sobre as urnas)”, garantiu.

Menos de dez dias depois, o ministro esteve na Comissão de Transparência do Senado e manteve o estilo conciliador, distante das tramas privadas entre os bolsonaristas.

“O que se escuta muito, me deixa bastante chateado, chateado como ministro, como membro das Forças Armadas, é por vezes ouvir, ler: ‘ataque à democracia’. Como se nós estivéssemos atacando a democracia mostrando um produto acabado de algo interessante para o sistema eleitoral brasileiro, que é essa parte técnica”, afirmou aos senadores.

Encontros com Moraes

Nas duas últimas semanas de agosto, o general ainda teve duas reuniões com Alexandre de Moraes, um dos principais alvos do bolsonarismo, que havia acabado de assumir a presidência do TSE. As agendas foram consideradas uma tentativa de “pacificar” a relação entre as Forças Armadas e a Corte eleitoral.

Outro presente à reunião de julho já havia adotado estratégia semelhante. Então advogado-geral da União, Bruno Bianco encontrou-se com Edson Fachin, antecessor de Moraes, em busca de serenar os ânimos. Interlocutores do Planalto à época afirmaram que a tentativa teve o aval do próprio Bolsonaro.

A visita de Bianco ao TSE ocorreu 17 dias depois da reunião ministerial investigada pela PF e apenas dois após o ex-presidente fazer diversos ataques infundados em um encontro com embaixadores. Enquanto aliados abrandavam o discurso, Bolsonaro dobrava a retórica:

“O senhor Barroso (Luís Roberto Barroso, ex-presidente do TSE), também como senhor Edson Fachin, começaram a andar pelo mundo me criticando, como se eu estivesse preparando um golpe. É exatamente o contrário o que está acontecendo”, afirmou Bolsonaro aos diplomatas, em meio a uma série de ilações sem provas sobre as urnas eletrônicas e o sistema eleitoral como um todo.

O episódio resultou na condenação do ex-presidente pelo próprio TSE e na consequente inelegibilidade por oito anos.

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