Quarta-feira, 21 de janeiro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 21 de janeiro de 2026
Levou 26 anos e 6 meses, mas União Europeia (UE) e Mercosul finalmente assinaram o acordo que cria a maior área de livre-comércio do mundo. As negociações haviam sido concluídas no início do mês, mas ainda faltava a formalização de seus termos, o que ocorreu no fim de semana passado em uma cerimônia marcada por críticas ao protecionismo, que tem sido a marca do segundo mandato de Donald Trump à frente do governo dos EUA.
Quando o acordo entre Mercosul e UE começou a ser negociado, em junho 1999, já se sabia que as negociações seriam difíceis e demoradas, mas o mundo era outro e avançava rumo à redução de barreiras tarifárias e não tarifárias e à adoção de regras comerciais mais claras entre os países. A Organização Mundial do Comércio (OMC) vivia seu auge, e o Brasil foi um dos países que mais souberam se posicionar no órgão para se defender de medidas protecionistas e ampliar suas exportações.
Forjado por Trump ainda em seu primeiro mandato, quando os EUA passaram a bloquear a nomeação de juízes para o Órgão de Apelação, o ocaso da OMC fez com que muitos países voltassem seus olhos para acordos bilaterais. No caso específico de União Europeia e Mercosul, havia muitas diferenças a serem superadas dentro dos próprios blocos antes que as negociações pudessem avançar.
A agressividade da política comercial norte-americana obrigou os países a serem mais pragmáticos em relação às suas ambições e demandas. Além de impor tarifas para reduzir o déficit comercial nos EUA indiscriminadamente, Trump tem usado do instrumento para forçar os países a negociarem concessões em áreas que nada têm a ver com o comércio internacional.
O Brasil mesmo, com que os EUA registram superávit comercial há anos, já havia sido alvo desse tipo de sanção por motivos políticos. Meses depois, o tarifaço acabou por ser parcialmente revertido para alguns dos produtos que causavam maior impacto na inflação norte-americana e, consequentemente, na popularidade de Trump.
Mas, no sábado passado, Trump disse que aplicará taxas adicionais de 10% sobre os produtos oriundos de países europeus que se opuserem a seus planos de anexação da Groenlândia, território autônomo da Dinamarca. A União Europeia pretende responder de maneira conjunta e ameaça retaliar com tarifas equivalentes a 93 bilhões de euros e restrições ao acesso de empresas norte-americanas ao mercado.
Fato é que o lobby contra o acordo capitaneado por agricultores franceses e poloneses receosos de perder espaço para o agronegócio brasileiro, a despeito dos pesados subsídios, perdeu importância frente às ameaças geopolíticas que a União Europeia tem tido de lidar nos últimos anos, como o avanço da Rússia sobre as fronteiras ucranianas e a posição dúbia dos EUA diante da guerra.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, ressaltou que o acordo entre os blocos representa uma “escolha clara” pelo comércio justo, parceria produtiva de longo prazo e intenção de entregar benefícios reais e tangíveis para a população e os negócios, em detrimento de tarifas e isolamento.
Anfitrião da cerimônia, o presidente do Paraguai, Santiago Peña, afirmou que o pacto envia um sinal inequívoco do comércio internacional como fator de cooperação e crescimento em um contexto internacional marcado por tensões, unilateralismo, desconfianças e egoísmo.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não foi a Assunção, mas conseguiu trazer Von der Leyen para o Rio de Janeiro um dia antes para celebrar o acordo que ele considera uma aliança positiva para o mundo democrático.
São discursos altissonantes para que ninguém tenha de admitir que a realidade, afinal, se impôs. O acordo, por óbvio, ainda enfrentará muitos desafios, a começar pelo aval do Parlamento Europeu, e, ainda que seja aprovado, eurodeputados não descartam judicializá-lo. A eliminação de tarifas de importação será gradual e ocorrerá em até 15 anos, no Mercosul, e 12 anos, na Europa, e uma parte dos produtos terá cotas de importação.
Ainda assim, trata-se de uma vitória do multilateralismo, da diplomacia profissional e da racionalidade econômica, o que não é pouco nos tempos turbulentos em que vivemos. (Opinião/jornal O Estado de S. Paulo)