Segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Quando o pré-conceito virou crime e o preconceito virou tabu

Vivemos um tempo curioso e, também, perigoso. As pessoas já não discutem ideias, discutem palavras. E, nesse processo, perderam algo essencial: o bom senso.

Estou praticamente desenhando aqui o significado literal de duas palavras semelhantes, mas profundamente diferentes, que, em nome de uma ideologia militante, foram fundidas à força nas últimas décadas, como se significassem a mesma coisa.

Você sabe qual é a diferença entre preconceito e pré-conceito? O preconceito é a intolerância contra aquilo que você não conhece, não analisa e não está disposto a revisar. É julgamento fechado. Hostil. Dogmático.

Já o pré-conceito é um juízo antecipado, provisório, baseado em experiências, informações, contexto e instinto. É humano. É cognitivo. É sobrevivência, inclusive, existem técnicas usadas por policiais baseadas em pré-conceitos para traçar perfis de risco.

Misturar essas duas coisas não foi um erro semântico. Foi um projeto. O mesmo processo foi aplicado a uma terceira palavra: discriminação.

Ao longo do tempo, ela foi deliberadamente criminalizada no discurso público, como se discriminar fosse, por definição, um ato moralmente condenável.

Mas discriminar, no seu sentido original, significa apenas distinguir, separar, escolher. Você discrimina quando prefere rock a funk. Quando escolhe um restaurante e descarta outro.

Quando define com quem convive ou com quem não convive. Nada disso carrega ódio, ressentimento ou opressão. Criminalizar a discriminação é criminalizar o discernimento.

E, quando preconceito, pré-conceito e discriminação são fundidos artificialmente como se fossem a mesma coisa, o objetivo não é justiça, é controle do pensamento. Vamos a exemplos simples.

Primeira cena

Um homem negro entra em uma loja. Um funcionário, sem qualquer comportamento suspeito, passa a segui-lo apenas por sua aparência. Isso é preconceito, algo realmente execrável e desprezível.

Segunda cena

Um transeunte caminha sozinho por uma rua escura e deserta, de madrugada. Avista um homem alto, de capuz e boné, vindo em sua direção. O homem é negro. O transeunte sabe, pelas notícias e pela própria vizinhança, que aquele local é conhecido por assaltos frequentes. Ele atravessa a rua. Observa. Protege-se. Isso é pré-conceito, zelando pela própria segurança.

Até aqui, tudo claro. Agora vem a parte que costuma causar curto-circuito moral.

Terceira cena

Um homem branco entra em uma loja vestindo boné, tênis da moda, camiseta larga e corrente no pescoço. Um funcionário o observa com atenção redobrada. Muitos correrão para gritar: “Preconceito!”

Mas é aqui que o debate precisa amadurecer. A indumentária também comunica, e muito. Não por essência moral, mas por histórico antropológico cultural. Certos estilos de vestimenta já estiveram associados, ao longo do tempo, a ambientes de marginalidade, anonimato ou pertencimento grupal antes de serem absorvidos pela moda popular.

Hoje, claro, muita gurizada de bem usa esse estilo apenas por estética. O significado mudou. Mas o histórico permanece, e ele ainda influencia leituras de cenário, gostemos disso ou não. Isso não é julgamento moral. É leitura contextual.

Quarta cena

O mesmo homem branco, com o mesmo estilo, caminha naquela mesma rua escura e perigosa, na mesma madrugada. O transeunte pensa: “É branco, então não há risco”. Continua na mesma calçada. Minutos depois, é assaltado. Resultado: isso não é virtude. É imprudência. Para ser direto: burrice.

Porque aqui está a verdade inconveniente que a militância odeia admitir: bandido não tem cor. Perigo não se anuncia por identidade. E contexto não é discriminação.

Boné, capuz e roupas largas não são crimes, mas ajudam a ocultar o rosto, dificultam reconhecimento e entram, sim, na leitura de risco, ou seja, dependendo do ambiente, é prudente aplicar o pré-conceito contextual, não o preconceito moral.

Quando você proíbe qualquer forma de pré-conceito, você não elimina o preconceito. Você apenas proíbe o raciocínio lógico.

E quando pensar vira risco, as pessoas não ficam mais éticas. Ficam mais silenciosas, mais falsas, e muito menos seguras.

O mundo não ficou mais justo porque abolimos o pré-conceito. Ficou apenas mais confuso, mais performático e perigosamente desconectado da realidade.

Num mundo ideal, a sociedade deve abolir o preconceito. Mas jamais pode abrir mão do pré-conceito. Porque confiança se constrói. Segurança se preserva. E lucidez não se impõe, se exerce.

* Fabio L. Borges, jornalista, cronista e poeta gaúcho

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