Sábado, 22 de agosto de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 22 de agosto de 2026
A ideia de que as relações internacionais pertencem exclusivamente à burocracia de Brasília prescreveu. No século XXI, a fronteira entre decisões domésticas e disputas globais desapareceu: a capacidade de gerar empregos, atrair capital e proteger a produção nacional é determinada pelo posicionamento geopolítico do país. Do preço dos fertilizantes à atração de investimentos em infraestrutura, o cotidiano do cidadão depende da política externa. Em um mundo moldado pela rivalidade entre potências, o amadorismo ideológico e a volatilidade reputacional cobram um preço alto. Para reestruturar a inserção internacional do país, é imperativo substituir o voluntarismo por um pragmatismo liberal, firme e focado no interesse nacional.
Essa inflexão exige recompor laços de confiança com o eixo de democracias liberais do Ocidente — Estados Unidos, União Europeia e parceiros do Indo-Pacífico —, garantindo a segurança jurídica indispensável para atrair investimentos e cooperação estratégica. Paralelamente, quanto aos regimes autoritários, o país deve manter uma postura madura: preservar canais abertos com grandes mercados compradores sem conceder chancela política a modelos autocráticos. No âmbito regional, cabe ao Brasil liderar a modernização do Mercosul, flexibilizando o bloco para permitir acordos bilaterais em ritmos distintos.
A conversão da diplomacia em crescimento tangível passa pela conclusão da adesão do Brasil à OCDE, selo de maturidade regulatória e de livre mercado. Além disso, o país precisa se posicionar como fornecedor indispensável para a transição energética e tecnológica. Com valiosas reservas de minerais críticos — como lítio, níquel e terras raras — e uma matriz elétrica limpa, o Brasil deve usar esses ativos como moeda de negociação estratégica, condicionando o acesso aos recursos à instalação de plantas industriais e à transferência tecnológica, superando a condição de mero exportador de commodities brutas. Da mesma forma, a escala do agronegócio deve virar poder geopolítico para assegurar o suprimento de insumos.
No plano global, o Brasil deve exercer voz ativa, defendendo a soberania nacional e rejeitando restrições indevidas à sua agricultura e indústria. Para dar sustentação a esse protagonismo, é essencial firmar parcerias tecnológicas com nações democráticas, como Japão e Taiwan, priorizando a cooperação em inteligência artificial e semicondutores. Essa integração à cadeia global de inovação constrói soberania digital, desenvolve a indústria de alta complexidade e viabiliza os corredores bioceânicos, consolidando o país como o principal hub tecnológico e logístico da América do Sul.
A reconstrução da diplomacia brasileira não é uma abstração teórica, é um compromisso direto com o desenvolvimento e o bem-estar da população. Ao abandonar os equívocos do passado e adotar uma visão pautada pelo livre mercado, pela segurança jurídica, pelo respeito às democracias e pelo crescimento produtivo, o Brasil deixa de ser espectador para se tornar arquiteto do seu próprio destino. Uma diplomacia moderna, firme e pragmática converterá nossa atuação internacional no motor mais potente de prosperidade, soberania e orgulho nacional.

* Márcio Coimbra é CEO da Casa Política e presidente-executivo do Instituto Monitor da Democracia. Mestre em Ação Política pela Universidad Rey Juan Carlos (2007). Ex-diretor da Apex-Brasil e do Senado Federal.