Domingo, 05 de abril de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 4 de abril de 2026
Se você é pai, mãe ou cuidador, certamente ouviu falar sobre o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) Digital. A nova lei começou a ser implementada no país com a promessa de tornar o ambiente online mais seguro para crianças e adolescentes . Isso inclui mudanças como verificação de idade mais rigorosa e configurações de proteção ativadas por padrão nas plataformas. Nós já falamos nesta newsletter sobre idades recomendadas para as redes sociais.
Talvez a principal mudança agora seja menos técnica e mais estrutural: pela primeira vez, a responsabilidade pela segurança digital deixa de recair quase exclusivamente sobre as famílias.
A pergunta que recebemos nesta semana se encaixa perfeitamente neste contexto: o que, afinal, os pais precisam fazer a partir da implementação da lei, quando pensamos na proteção dos nossos filhos e filhas nas redes sociais?
Os especialistas que ouvimos explicam. E, para apoiar essas reflexões, convidamos você a ler também um trecho do novo livro de Jonathan Haidt, autor do best-seller “Geração Ansiosa”. Agora ele se volta diretamente para crianças e adolescentes com “A geração incrível”, que será lançado na próxima semana.
Se você tem perguntas sobre a educação dos seus filhos, mande para a gente ao final desta newsletter. Muitas vezes, a sua inquietação é também a de outros pais e mães que estão tentando acertar todos os dias.
Palavra dos especialistas
Rodrigo Nejm – Psicólogo e especialista em Educação Digital do Instituto Alana
O papel dos pais continua sendo imprescindível para manter uma rotina digital saudável das crianças. A grande diferença, agora, é que esse papel passa a contar com uma colaboração mais direta das empresas, mudando a infraestrutura dos ambientes digitais.
As empresas são obrigadas a oferecer mecanismos fáceis de usar para a supervisão parental e de denúncia para a rápida remoção de conteúdos que violem os direitos de crianças e adolescentes. Também devem oferecer um mecanismo que bloqueia os “loot boxes” — caixas de surpresa tipo cassino, dentro de jogos e plataformas digitais — e para retirar ferramentas de design manipulativo que forçam a conexão constante.
Em resumo, as famílias continuam tendo o seu papel indispensável de acompanhar e supervisionar os seus filhos na internet, mas esse papel agora fica um tanto mais justo porque a responsabilidade não é mais exclusivamente delas: as empresas têm o dever de oferecer essas ferramentas em português — o que parece óbvio, mas muitas não ofereciam — e fáceis de usar. E o Estado também terá que ajudar as famílias, fiscalizando as empresas que não cumprirem essas obrigações.
É também uma boa ocasião para, em família, repactuar a presença digital das crianças de acordo com sua faixa etária. Ou seja, aproveitar a ocasião desse grande debate nacional para reorganizar a presença das crianças no meio digital, e olhar com calma a nova classificação indicativa em lojas de aplicativos.
José Brito – Jornalista, fundador da Pupa Educação Digital e professor do Laboratório de IA e Educação Digital do Colégio MOPI
O papel de pais e responsáveis nesse novo contexto do ECA Digital é conhecer minimamente a tecnologia do seu tempo e fazer parte da conversa. Foi o que aconteceu comigo, quando era repórter do programa Globo Ecologia, no final dos anos 1990. Explico.
Em uma manhã fria de outono, enquanto pesquisava sobre biodiversidade para uma reportagem para TV, me vi diante de um novo desafio: o surgimento do Google.
Estávamos em 1998. Naquele mesmo ano em que o Brasil perdia a Copa do Mundo da França, eu lutava para não perder também de goleada outra batalha tecnológica bem diante dos meus olhos.
Da mesma maneira que hoje nossos filhos e filhas lutam para não fazer um “copia e cola” em uma pesquisa digital com IA, eu procurava desvendar os caminhos para usar o teclado e encontrar fontes em um computador com uma conexão discada.
O jogo mudou. Aquela pesquisa se transformou em conversa com assistente virtual com IA. O que era link virou resumo. E muitos dos problemas que estavam offline migraram para o ambiente online.
Nesse sentido, a tecnologia uniu as gerações. A turma dos anos 1970 (Geração X) está com o bode na sala com a galerinha nascida depois de 2010 (Geração Alpha). E todos precisam falar a mesma língua, pois é essa a nova força de trabalho que vai sair da escola e ocupar os novos postos que estão em constante transformação. Com informações do portal O Globo.