Quarta-feira, 13 de maio de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 12 de maio de 2026
No extremo norte do Alasca, onde o inverno pode esconder o Sol por mais de dois meses e os termômetros despencam para além dos -40°C, a rotina segue outro relógio. Em Utqiaġvik, a cidade mais ao norte dos Estados Unidos, as estações falam mais alto que o calendário, e viver ali significa aprender a conviver com o gelo, o vento e o mar.
Segundo reportagem da CNN Travel, é nesse cenário de tundra ártica e oceano congelado que cerca de 4,5 mil moradores constroem uma vida marcada pela convivência entre tradição e modernidade.
Para Robin Mongoyak, morador local e dono da empresa Kiita Tours, a primavera não começa oficialmente em uma data específica, mas com o retorno das escrevedeiras-das-neves. As pequenas aves pretas e brancas anunciam que o sol da meia-noite está se aproximando e que o inverno finalmente começa a recuar.
Enquanto observa o céu da varanda de casa, Mongoyak mantém uma perna de rena congelada armazenada na neve, ingrediente do aluutagaàq, prato tradicional Iñupiat preparado com carne de rena ao molho.
“É como um despertador natural”, contou à CNN Travel.
Todos os anos, o sol desaparece no horizonte em novembro e só volta a surgir no fim de janeiro. Durante esse período, Utqiaġvik permanece sob um brilho azul constante, em uma longa noite polar.
As temperaturas podem chegar a -45,5°C e, com a sensação térmica provocada pelos ventos, se aproximar de -67°C. Quando a luz retorna, a transformação na cidade é imediata. Festivais, danças Iñupiaq, fogueiras e até partidas de golfe sobre o gelo marcam o Piuraagiaqta, celebração local cujo nome significa “vamos sair para brincar”.
A cultura indígena Iñupiat continua no centro da vida local. Muitas famílias ainda dependem da caça de subsistência, da pesca no gelo e da caça de baleias para alimentação e preservação da identidade cultural.
Corrine Danner, nascida e criada na região, lembra da infância acompanhando o pai, capitão baleeiro, em expedições que duravam semanas. O alimento vinha da terra e do mar: rena, foca, ganso, caribu e o tradicional muktuk, feito de pele e gordura de baleia, compartilhado entre a comunidade após as temporadas de caça.
Mesmo com a forte presença das tradições, Utqiaġvik também enfrenta desafios da modernidade. O custo de vida é elevado: uma pizza congelada pode custar mais de US$ 25, enquanto um galão de leite chega a US$ 13.
Como a cidade só é acessível por avião ou, durante o verão, por balsa, praticamente todos os produtos precisam ser transportados por via aérea. A falta de moradias também representa um problema, agravado pelo permafrost — solo permanentemente congelado que exige construções erguidas sobre palafitas para evitar rachaduras e afundamentos.
A exploração de petróleo trouxe empregos e melhorias na infraestrutura, mas também abriu debates delicados na comunidade. Se, por um lado, a atividade ajuda a financiar serviços essenciais e elevou a qualidade de vida, por outro alterou rotas tradicionais de migração das renas e aumentou preocupações ambientais.
Mongoyak resume esse dilema como uma busca constante por equilíbrio entre desenvolvimento econômico e preservação das futuras gerações.
Para quem chega de fora, o impacto costuma ser imediato. Shane Parker, policial e fotógrafo de vida selvagem que trabalha em turnos na cidade, afirma que a paisagem parece “de outro planeta”.
Em Point Barrow, o ponto mais ao norte dos Estados Unidos, ele já fotografou ursos-polares, raposas-do-ártico e corujas-das-neves. Durante a noite, a aurora boreal domina completamente o céu.
“Ela não fica apenas no horizonte, está completamente acima da sua cabeça”, relatou à CNN Travel.
Apesar do isolamento e do frio extremo, Utqiaġvik costuma provocar o efeito contrário em muitos moradores: faz com que eles sempre retornem. Segundo habitantes locais, o próprio nome da cidade carrega esse significado — “um lugar para onde voltar”.
Mongoyak, que já tentou viver em lugares como Havaí e Anchorage, diz que a ligação com a cidade é inevitável.
“Não importa para onde formos”, afirmou à CNN Travel. “Sempre será um lugar para onde poderemos voltar.”
(Com O Globo)