Quinta-feira, 05 de fevereiro de 2026

Saiba por que cada vez mais médicos experimentam sintomas de burnout

Foi durante a pandemia de Covid-19 que muitos médicos passaram a relatar sinais de esgotamento emocional, agravados por jornadas extensas, pressão assistencial e isolamento social. Trabalhando em unidades de terapia intensiva, profissionais enfrentaram acúmulo de plantões, substituição de colegas afastados por doença e convivência constante com situações-limite. O resultado foi o avanço de sintomas como irritabilidade, distúrbios do sono, fadiga persistente e alterações de humor, característicos do burnout.

Embora a pandemia tenha intensificado o problema, o esgotamento profissional entre médicos não é um fenômeno recente. Pesquisas mostram que o burnout já era recorrente antes da crise sanitária, impulsionado por fatores estruturais da profissão, como longas jornadas, alta responsabilidade e pouco espaço para recuperação física e emocional.

Um levantamento da Afya indica que, em 2025, cerca de 45% dos médicos no Brasil apresentaram algum transtorno mental, incluindo ansiedade, depressão ou burnout. O índice permaneceu elevado em relação ao período pós-pandemia e registrou aumento de 13% em comparação a 2024. Os dados reforçam que o cenário de sobrecarga não foi apenas circunstancial, mas estrutural.

O conceito de burnout tem origem nos estudos do psicólogo Herbert J. Freudenberger, que, em 1974, observou profissionais de saúde submetidos a estresse emocional crônico em clínicas comunitárias. Posteriormente, a psicóloga Christina Maslach consolidou a definição do quadro em três dimensões principais: exaustão emocional, despersonalização ou cinismo e redução da realização profissional.

Estudos acadêmicos confirmam a gravidade do problema. Uma pesquisa da Universidade Federal da Bahia (UFBA), realizada com médicos intensivistas em cinco capitais brasileiras, apontou níveis elevados de exaustão emocional em 50,6% dos entrevistados, despersonalização em 26,1% e sensação de ineficácia em 15%. Considerando ao menos uma dessas dimensões em nível alto, a prevalência de burnout chegou a 61,7%. O estudo ouviu 180 profissionais de Porto Alegre, São Paulo, Salvador, Goiânia e Belém.

Outro levantamento da Afya, com 2.147 médicos entrevistados entre janeiro e abril do ano passado, mostrou que 58,2% já vivenciaram algum grau de esgotamento relacionado ao trabalho. Além disso, quatro em cada dez convivem com diagnóstico de transtorno de ansiedade. Apenas 24,7% afirmaram nunca ter apresentado sintomas ansiosos ao longo da vida. Em relação à depressão, somente 36,1% nunca relataram sintomas, o que indica que quase dois terços da amostra já passaram por algum nível de sofrimento depressivo.

A pesquisa também revela recortes importantes por gênero e idade. As mulheres concentram a maior parte dos diagnósticos de transtornos mentais, fenômeno associado à dupla jornada de trabalho e à sobrecarga emocional. Em 2025, 51,8% das médicas relataram algum diagnóstico, ante 46,8% no ano anterior. Já entre os mais jovens, o impacto é ainda maior: até os 35 anos, metade dos profissionais apresenta ansiedade, depressão ou burnout. A partir dessa faixa etária, os índices diminuem gradualmente, chegando a 82% sem transtornos identificados entre médicos com mais de 56 anos.

Levantamento da plataforma Medscape aponta tendência semelhante. Entre médicos com menos de 45 anos, 59% relatam esgotamento, além de maior desejo de reduzir a carga de trabalho, passar mais tempo com a família e se aposentar mais cedo. Entre os profissionais mais experientes, há maior disposição para seguir trabalhando por mais tempo, reflexo de maior autonomia, estabilidade financeira e estratégias desenvolvidas ao longo da carreira para lidar com frustrações e perdas.

Especialistas alertam que, no caso da medicina, o acesso facilitado a medicamentos pode atrasar o reconhecimento do adoecimento mental. O uso de substâncias para manter a produtividade tende a mascarar sinais de alerta, aprofundando o desgaste emocional. O enfrentamento do burnout, segundo estudos, exige não apenas estratégias individuais, como atividade física, lazer e apoio psicológico, mas também mudanças estruturais no ambiente de trabalho, com limites mais claros, redução da sobrecarga e valorização da saúde mental dos profissionais.

(Com O Globo)

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