Terça-feira, 03 de fevereiro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 2 de fevereiro de 2026
O ex-banqueiro Daniel Bueno Vorcaro recebeu um ultimato do Banco Central (BC) em novembro de 2024 para corrigir os problemas patrimoniais e de liquidez do Banco Master num prazo de até seis meses, ainda na gestão de Roberto Campos Neto como presidente da instituição.
Esse termo de comparecimento colocava, pela primeira vez, Vorcaro diante da possibilidade concreta de liquidação do Master, embora em todo o período os esforços do Banco Central tenham sido para encontrar uma solução de mercado que minimizasse os prejuízos para o Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
É o que revelam fontes envolvidas no processo de supervisão do banco, que ajudaram a reconstituir alguns dos dilemas e conflitos dentro do BC para resolver os problemas de um banco que, embora não fosse grande o suficiente para representar um risco sistêmico, assumiu uma importância incomum devido aos contatos de Vorcaro no mundo político.
O Banco Master está classificado, para fins de supervisão, como uma instituição financeira nível 53, numa escala com cinco níveis. Na prática, isso o enquadra como um banco médio, com ativos que representam entre 0,1% e 1% do Produto Interno Bruto (PIB), normalmente acompanhado pelos escalões mais baixos do Banco Central. O foco da diretoria colegiada do BC é principalmente o S1, os grandes bancos, cuja quebra poderia ter efeitos severos para a economia como um todo.
Campos Neto passou a dar uma atenção maior ao Master em 2023, ciente da crise de reputação do banco e diante de alertas feitos por banqueiros e por dirigentes do FGC. Sua estratégia tinha duas frentes. De um lado, diversificar o passivo do banco, ou seja, suas captações, que eram muito dependentes dos CDBs garantidos pelo FGC. De outro lado, assegurar que os ativos do banco fossem reais e, de fato, valessem o escrito no balanço.
Do lado das captações, a medida mais importante foi criar um limite, vinculado ao tamanho do patrimônio líquido, para as captações garantidas pelo FGC, que se concretizou na resolução nº 5.114 do Conselho Monetário Nacional (CMN).
Nessa regra, o Master foi o mais atingido, mas havia uma preocupação maior do Banco Central, na medida em que as captações seguradas pelo FGC haviam crescido de forma exponencial e representavam um risco moral para todo o sistema.
Segundo uma fonte que participou das discussões, a medida tinha que ser calibrada para conter os excessos do Master, que na época tinha uma captação de R$ 38 bilhões garantida pelo FGC, mas sem causar uma crise em cadeia num conjunto mais amplo de bancos que haviam captado, no total, cerca de R$ 850 bilhões.
No Congresso Nacional, já tinham sido feitas tentativas de aumentar a cobertura do FGC de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por CPF, numa iniciativa do senador Ciro Nogueira (PP-PI). Campos Neto convenceu parlamentares de que a medida iria implodir o sistema – e acabou tendo que desistir de aprovar a lei de resolução bancária, onde uma emenda sobre o FGC havia sido inserida.
Outra frente foi olhar, no detalhe, onde o Master estava investindo o dinheiro captado. O banco tinha um balanço relativamente simples, concentrado em poucas linhas: sobretudo precatórios judiciais, participações em empresas, empréstimos corporativos e certificados de recebíveis imobiliários (CRIs).
A tarefa foi dividida em frentes de trabalho. O diretor de Fiscalização, Ailton de Aquino, liderou o exame dos precatórios – uma das queixas apresentadas por banqueiros era que o Master lançava esses precatórios em balanço acima de seu valor de mercado.
Campos Neto buscou indicações, com ex-colegas do mundo privado, de especialistas no assunto e repassou a Aquino uma lista com três escritórios de advocacia. Um deles foi escolhido e fez um relatório que dizia que os valores em balanço representavam o valor justo.
Ainda assim, o Banco Central aprovou uma resolução que, na prática, limitava o crescimento do volume de precatórios no balanço do Banco Master, mas sem determinar que a instituição se desfizesse das operações.
Uma segunda linha de apuração foi examinar os CRIs, que têm uma estrutura mais complexa, com várias camadas. Sua compreensão era particularmente difícil porque uma boa parte eram “CRIs ocos” – ou seja, captações de recursos para empreendimentos que são feitos apenas posteriormente.
Campos Neto pediu ao ex-diretor de Fiscalização do BC Paulo Souza que se concentrasse nas operações de crédito corporativo. Uma das empresas que estavam em evidência na lista é a iFly, que, segundo publicado pelo Valor, teria participado de empréstimos simulados de R$ 449 milhões do Master. A empresa nega irregularidades e ter contratos em aberto com o Master. (Com informações do Valor Econômico)