Terça-feira, 05 de maio de 2026

Saiba por que o Banco Central não conseguiu frear o Banco Master

A fiscalização do Banco Central (BC) sempre soube que o Banco Master, controlado por Daniel Vorcaro, era financeiramente frágil e tinha uma administração problemática, mas não foi capaz de tomar medidas fortes o suficiente para conter o seu rápido crescimento.

O Departamento de Supervisão (Desup) do BC enviou pelo menos 25 ofícios ao Master entre 2021 e 2024, determinando a correção de problemas como insuficiência de capital para operar. Também apontou irregularidades na classificação de risco de operações de crédito e nas informações prestadas sobre investimentos feitos em precatórios e em fundos administrados pela Reag.

Já com dificuldades de liquidez, Vorcaro dobrou a aposta no Master ao longo de 2024, aumentando as suas captações seguradas pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC), de R$ 30 bilhões para R$ 60 bilhões.

A fiscalização do BC ficou um passo atrás de adotar medidas mais drásticas para barrar Vorcaro em pelo menos três momentos críticos em 2024: em março, quando foi constatada a fragilidade nos indicadores de liquidez; em maio, quando a autoridade estimou uma deficiência de capital de R$ 885 milhões; e em novembro, quando o então banqueiro apresentou um plano para equacionar os problemas.

O ano de 2024 marcou uma fase crucial, já que, naquele momento, é possível afirmar com segurança que a diretoria do BC chefiada por Roberto Campos Neto tinha conhecimento do comportamento arriscado do Master. No ano anterior, o colegiado aprovou restrições aos investimentos em precatórios e limitou as captações de depósitos seguradas pelo FGC.

Fiscais

Os fiscais do BC se viram confusos e sobrecarregados para desvendar irregularidades em um banco que operava fora dos padrões, com operações estruturadas que exigiam investigação caso a caso.

Ainda está sendo investigado se dois funcionários com cargos de direção no Desup supostamente cooptados por Vorcaro – Belline Santana e Paulo Souza – atrapalharam a apuração e o combate a irregularidades. Em tese, eles não tinham poderes para parar o trabalho dos fiscais, mas exerciam influência central na definição da estratégia de supervisão e na sequência das ações que poderiam conter Vorcaro.

As investigações no BC tiveram alguns dos seus principais progressos em 2025, quando os diretores de fiscalização, Ailton de Aquino, e de organização do sistema financeiro, Renato Gomes, pediram a contribuição mais intensa de outros departamentos do órgão, como o que cuida do monitoramento de dados de instituições financeiras – que traçou, por exemplo, o fluxo de desvio de recursos por meio de fundos de investimento.

O BC decretou sigilo de oito anos sobre a documentação da fiscalização do Master, que embasou a liquidação da instituição, seguindo as regras de classificação criadas há 15 anos, na gestão Tombini. Um relatório de fiscalização de técnicos do TCU feito em fevereiro, porém, faz um apanhado dos trabalhos de supervisão desde 2021 e cita o conteúdo de um conjunto de 25 ofícios encaminhados pelos fiscais do BC aos dirigentes do Master para corrigir problemas.

Essa documentação revela que o BC tinha conhecimento de problemas no Master mesmo antes de receber alertas de participantes do mercado. Como revelado pelo Valor, as preocupações com a reputação de Vorcaro já estavam presentes pelo menos desde 2019, quando foi concedida a autorização para ele comprar de Saul Sabbá o Banco Máxima, atual Banco Master.

Já sob a gestão de Vorcaro, o Master passou em 2020 pela sua primeira grande avaliação. O Comitê de Avaliação de Riscos e Controles (Corec) do BC atribuiu um “rating” baixo ao banco, devido a “fragilidades relevantes na estrutura de governança e na gestão de riscos”. O desdobramento ocorreu no ciclo bianual de supervisão de 2021, quando o BC exigiu um colchão adicional de capital do Master para proteger depositantes de eventuais perdas nas suas operações.

Esse ciclo de supervisão também identificou uma série de problemas que, depois de investigações mais profundas, levaram ao envio de ofícios ao Master pelo BC, ao longo de 2022. Os fiscais exigiram a reclassificação de risco de operações de crédito para evitar maquiagem da inadimplência. Foi descoberto ainda um conjunto de problemas em créditos feitos por meio de fundos.

Todos esses achados acenderam uma luz amarela em relação ao Master, mas naquele momento ainda não havia nada que apontasse um desequilíbrio ou irregularidade grave que exigisse uma ação mais forte. O quadro se deteriorou de forma significativa a partir do ciclo bianual de supervisão seguinte, em 2023. (Com informações do Valor Econômico)

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