Sexta-feira, 16 de janeiro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 15 de janeiro de 2026
A glândula tireoide está localizada na base do pescoço, logo abaixo do pomo de Adão, e desempenha papel essencial no funcionamento do organismo. É responsável pela liberação de hormônios que regulam os batimentos cardíacos, a pressão arterial, a temperatura corporal e o metabolismo, influenciando diretamente o peso e os níveis de energia.
O câncer de tireoide ocorre quando células da glândula passam a crescer e se dividir de forma descontrolada, formando tumores que podem invadir tecidos vizinhos e, em alguns casos, se espalhar para outras partes do corpo. Apesar de, na maioria das situações, apresentar bom prognóstico e altas taxas de cura, o avanço dos diagnósticos tem preocupado especialistas em saúde.
Nos Estados Unidos, o câncer de tireoide é o tipo que mais cresceu proporcionalmente nas últimas décadas. Dados do sistema de Vigilância, Epidemiologia e Resultados Finais (Seer, na sigla em inglês) mostram que a incidência mais que triplicou entre 1980 e 2016. Entre os homens, os casos passaram de 2,39 para 7,54 a cada 100 mil habitantes. Entre as mulheres, o número subiu de 6,15 para 21,28 casos por 100 mil.
“O câncer de tireoide permanece um dos poucos tipos de câncer cuja incidência continua aumentando ao longo do tempo, apesar dos avanços da medicina”, afirma a cirurgiã endocrinologista Sanziana Roman, da Universidade da Califórnia em São Francisco.
A relação entre exposição à radiação ionizante na infância e o surgimento do câncer de tireoide é conhecida há décadas. Após o acidente nuclear de Chernobyl, em 1986, houve um aumento expressivo de casos entre crianças da Ucrânia e de regiões vizinhas da Rússia e de Belarus. Estudos também indicam que cerca de 36% dos casos diagnosticados entre sobreviventes das bombas atômicas lançadas sobre o Japão em 1945 podem ser atribuídos à exposição à radiação ainda na infância.
No entanto, a ausência de desastres nucleares nos Estados Unidos nas décadas seguintes levou pesquisadores a buscarem outras explicações. Uma delas foi o avanço das técnicas de diagnóstico. A partir dos anos 1980, a introdução da ultrassonografia da tireoide permitiu a identificação de nódulos muito pequenos, antes impossíveis de detectar. Já nos anos 1990, a punção aspirativa por agulha fina passou a ser amplamente utilizada para confirmar se esses nódulos eram malignos.
“Antes, os médicos dependiam basicamente da palpação para identificar alterações na tireoide”, explica a epidemiologista Cari Kitahara, do Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos. “Com a ultrassonografia, passaram a detectar nódulos menores e a realizar biópsias, o que aumentou o diagnóstico de cânceres papilares pequenos, que dificilmente seriam encontrados no passado.”
Outros indícios reforçam essa tese. Durante o período de crescimento acelerado dos diagnósticos, a taxa de mortalidade permaneceu estável. Na Coreia do Sul, por exemplo, a incidência disparou após a criação de um programa nacional de rastreamento e voltou a cair quando o programa foi reduzido.
Esses padrões são compatíveis com o chamado diagnóstico excessivo — a identificação de tumores que, muitas vezes, cresceriam lentamente e não causariam sintomas ou risco de morte. Ainda assim, intervenções agressivas eram comuns, como a retirada total da tireoide e o uso de iodo radioativo, tratamentos que podem causar efeitos colaterais relevantes.
Com a revisão das diretrizes médicas, o tratamento tornou-se mais conservador. Hoje, o iodo radioativo é reservado para casos mais agressivos, e a remoção parcial da glândula ou a estratégia de “vigiar e esperar” são opções frequentes. Como resultado, os dados mais recentes do Seer indicam estabilização dos casos: em 2010, foram registrados 13,9 novos diagnósticos por 100 mil habitantes; em 2022, o índice foi de 14,1.
Apesar disso, pesquisadores alertam que o diagnóstico excessivo não explica todo o aumento observado. Estudos apontam crescimento da incidência também em países de renda média, onde o acesso a exames é mais limitado. Além disso, tumores maiores e mais avançados vêm sendo detectados com maior frequência.
“A incidência do câncer de tireoide está aumentando mesmo em regiões sem rastreamento sistemático”, afirma Roman.