Quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Santa Catarina: veto ao naturismo em praia pioneira no País expõe ofensiva conservadora contra a prática

“Todo mundo nu em Camboriú”: assim resumiu a revista Manchete, em 1984, ao descrever a Praia do Pinho, em Santa Catarina, como um dos principais destinos naturistas do país. A frase virou bordão e inspirou programas de humor, numa fama nacional que, quatro décadas depois, ficou no passado. A recente proibição da prática nos 500 metros de areia entre as praias de Laranjeiras e do Estaleirinho reacendeu o discurso conservador contra o naturismo e abriu debate sobre a regulamentação desse estilo de vida.

Pioneira, a Praia do Pinho é considerada a primeira praia brasileira dedicada ao naturismo, filosofia que propõe o contato harmonioso com a natureza e inclui o nudismo coletivo sem conotação sexual. Em dezembro, a prefeita de Balneário Camboriú, Juliana Pavan (PSD), sancionou a lei do novo Plano Diretor, que suprimiu a reserva de áreas para a prática, prevista desde 2006.

A gestão municipal alegou que o espaço “perdeu o verdadeiro sentido” do naturismo e passou a ser usado para atos ilícitos e crimes. Críticas semelhantes vêm de anos anteriores. Em 2016, um diário local chegou a classificar parte da praia como “um motel ao ar livre”, citando flagras de relações sexuais e consumo de drogas.

Associações e defensores do naturismo sempre rejeitaram qualquer vínculo com esse tipo de prática e cobravam reforço na fiscalização e na segurança. Segundo a presidente da Federação Brasileira de Naturismo (FBrN), Paula Silveira, as medidas só foram adotadas após a proibição. Para ela, a omissão do poder público contribuiu para o agravamento da situação.

“Já recolhemos mais de mil camisinhas em uma limpeza de trilha. Sempre pedimos mais policiamento e controle de acesso. Quando sugeri a instalação de câmeras em áreas onde nem é permitido ficar nu, ouvi piadas. Diziam que não havia efetivo. Agora, ficou claro que havia”, afirma. “Se o Estado não age, abre espaço para ilegalidades. Proibiram o naturismo, que nada tem a ver com essas práticas, que também nos incomodam.”

Em 2022, um vereador apresentou projeto para descaracterizar a Praia do Pinho como naturista, mas o Ministério Público recomendou aguardar o novo Plano Diretor. No fim de 2025, moradores promoveram abaixo-assinado citando orgias a céu aberto e lixo nas trilhas.

Dias após sancionar a lei, a própria prefeita visitou a praia, que classificou como uma das mais bonitas da cidade. Em 27 de dezembro, reforçou o objetivo de trazer “organização” ao uso do espaço. “Durante décadas, a Praia do Pinho foi reservada ao naturismo, mas isso se perdeu ao longo dos anos. Ouvimos a comunidade e decidimos acabar com essa bagunça”, declarou.

Pouco depois da revogação, a Polícia Militar prendeu um homem nu no local, acusado de ato obsceno, resistência e desobediência. A FBrN acionou a Justiça, que concedeu liminar para impedir a prisão de frequentadores. Na decisão, o juiz Marcelo Fidalgo Neves destacou que o crime de ato obsceno depende de contexto e intenção, mas manteve a validade da proibição. O município informou que irá recorrer.

Em nota, a FBrN afirmou que naturismo “não é nudismo desordenado” e questionou a eliminação de um direito coletivo por falhas de gestão. A entidade também citou especulação imobiliária e possível venda do Complexo do Pinho como preocupações legítimas.

Casos semelhantes já ocorreram em outras regiões. Em Búzios (RJ), imagens de uma orgia na praia Olho de Boi motivaram investigação policial em 2024. Já em Santa Catarina, um projeto de lei para proibir o naturismo em todo o estado acabou arquivado. O relator, deputado Alex Brasil (PL), defendeu que a regulamentação é mais razoável do que a proibição, citando como exemplo a Praia de Abricó, no Rio de Janeiro.

Para Pedro Ricardo de Assis, diretor da Associação Naturista de Abricó, o avanço do conservadorismo influencia decisões do poder público. “Tudo vira desculpa para proibir o naturismo, que sempre foi visto de forma deturpada e sexualizada”, afirma.
(Com informações de O Globo)

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