Terça-feira, 28 de abril de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 28 de abril de 2026
Uma nova interpretação sobre o comportamento humano pode mudar a forma como se entende a motivação. Em vez de evitar o esforço por ser desagradável, pessoas e animais tenderiam a evitar apenas o esforço considerado inútil ou pouco recompensador. A conclusão está em um estudo publicado em 2026 na revista Neuroscience & Biobehavioral Reviews, assinado por pesquisadores de diferentes universidades internacionais.
O trabalho reúne análises conduzidas em parceria com Roy Baumeister, da Universidade de Harvard, além de cientistas ligados à Universidade de Genebra e à Universidade de Poitiers. A proposta central é revisar uma ideia tradicional da psicologia e da neurociência: a de que seres humanos evitam esforço por natureza.
Para sustentar a nova hipótese, os autores realizaram uma revisão crítica de estudos científicos em duas frentes principais. A primeira analisou o desenvolvimento infantil. Segundo os pesquisadores, se o esforço fosse intrinsecamente desagradável, essa rejeição deveria aparecer já nos primeiros anos de vida — o que não se confirma na prática.
Observações indicam que bebês e crianças pequenas se engajam espontaneamente em atividades que exigem esforço, frequentemente associando essas experiências a prazer e satisfação. Um dos exemplos citados envolve bebês de cerca de 10 meses, que aumentam sua dedicação a uma tarefa após observarem um adulto persistir diante de uma dificuldade.
Já por volta dos seis anos, crianças demonstram maior satisfação ao alcançar resultados em tarefas difíceis do que em atividades simples, sugerindo que o esforço pode agregar valor à conquista. Para os autores, esse comportamento contraria a ideia de que o esforço seria naturalmente evitado.
A segunda linha de análise abordou o chamado “princípio do menor esforço”, frequentemente observado em estudos com animais e adultos. Os resultados indicam que a preferência por caminhos mais fáceis ocorre apenas quando as recompensas são equivalentes. Quando há benefícios maiores associados a uma tarefa mais exigente, a tendência é que indivíduos optem pelo maior esforço.
Além disso, diversos estudos mostram que pessoas tendem a preferir se manter ativas em vez de permanecerem ociosas. Há evidências de que indivíduos ocupados relatam níveis mais altos de satisfação, mesmo quando a atividade não é totalmente voluntária.
A nova abordagem ajuda a explicar o chamado “paradoxo do esforço”: por que milhões de pessoas se dedicam voluntariamente a atividades exigentes, como esportes intensos, estudos prolongados ou o aprendizado de habilidades complexas, frequentemente relatando prazer nessas experiências.
Segundo os pesquisadores, o esforço pode ser entendido como um custo neutro, semelhante a um investimento. Dessa forma, ele é aceito quando os benefícios compensam o gasto. A mudança de perspectiva reposiciona o comportamento humano como resultado de avaliações e decisões, e não como uma simples reação a uma aversão biológica.
O estudo também diferencia situações comuns de desmotivação de quadros patológicos. Em alguns casos, a rejeição ao esforço pode estar ligada a fatores neurobiológicos, como alterações no sistema dopaminérgico. A dopamina é um neurotransmissor associado à sensação de recompensa e à motivação. Níveis insuficientes podem tornar o esforço efetivamente desagradável, reduzindo o engajamento.
Apesar dos avanços, os autores destacam que ainda há questões em aberto. Entre elas, estão as condições que levam ao desenvolvimento de uma aversão real ao esforço e o papel da motivação intrínseca — quando a atividade é realizada pelo próprio prazer, independentemente de recompensas externas.
A pesquisa também levanta implicações práticas para áreas como educação, trabalho e saúde. Em vez de focar apenas na redução da dificuldade das tarefas, os especialistas sugerem que torná-las mais significativas e recompensadoras pode ser um caminho mais eficaz para estimular o engajamento.