Segunda-feira, 09 de fevereiro de 2026

Seria a morte do flerte?

Houve um tempo, e foi quase ontem…

Tempo em que, se a gente olhar com carinho, homens e mulheres brigavam, riam, discutiam, faziam as pazes e seguiam juntos apesar das adversidades. Não existia manual para que tudo desse certo, nem decreto, nem audiência preliminar para amar alguém. Existia vida…

Ele falava alto demais, às vezes era indiscreto, ela implicava com tudo, os dois se irritavam, se desejavam, se entendiavam e se perdiam, mas também aprendiam a se amar.

Estavam ali, um diante do outro, tentando o tempo todo. E o “tentar” era mais importante que o “acusar”; não importava quanto tempo levasse – era o legítimo “que seja eterno enquanto durar”.

Mudanças necessárias

As mulheres lutaram, e com razão, para conquistar voz, espaço e respeito em casa e no mercado de trabalho. Ganharam terreno, abriram portas, desmontaram e reconstruíram velhas estruturas.

Mas, em algum ponto da estrada, o pêndulo passou do ponto de equilíbrio para o exagero. Tudo começou a mudar quando uma simples cantada ou um ato de proteção passou a virar assédio ou importunação sexual, e a presunção da verdade passou a ser automática em benefício da mulher.

E quem, em sã consciência, concederia essa presunção, justamente ao ser mais vingativo do planeta? Hoje, aquele famoso olhar 43 poderia facilmente virar o assédio 43.

E o que sempre foi humano, imperfeito e cheio de nuances passou a ser vigiado por leis que tentam medir até o tom do suspiro. Hoje, qualquer discussão vira desrespeito com a figura feminina.

Qualquer discordância vira constrangimento. Qualquer interrupção vira infração ou frase de efeito em inglês para causar constrangimento. E o flerte – aquele gesto ancestral, quase primitivo, que fazia o mundo andar – virou risco jurídico.

A convivência íntima se tornou um campo minado onde cada palavra pode virar prova, cada emoção pode virar processo, cada gesto pode ser interpretado como intenção.

O mais triste é que, com a presunção de verdade na mão, a mentira ganhou dentes afiados. A denúncia falsa virou arma de guarda, de vingança, de chantagem, de afastamento. Em muitas delegacias, 70% a 80% das queixas evaporam por falta de materialidade.

Só que o estrago emocional já está feito – isso quando não destrói a vida de um homem…

E o medo, esse fica para sempre. E o medo é o maior anticoncepcional emocional da era contemporânea. O homem moderno – assustado, retraído, cansado de virar réu por interpretações muitas vezes à margem da própria lei da Constituição Federal – começa a se afastar.

Não porque não ame mais. Mas porque amar virou algo perigoso. E nasce, silenciosamente, um separatismo que ninguém quer admitir: ele lá, ela cá.

Cada um no seu mundo, desconfiado do outro, como se fossem espécies diferentes ocupando a mesma rua, ou então inimigos naturais, quando, na verdade, são seres que foram feitos e moldados especialmente um para o outro, preenchendo as lacunas e falhas de cada ser.

O flerte morreu. Não porque o amor acabou, mas porque o direito entrou na sala sem bater e começou a medir afetos com régua de tribunal.

E, no fundo, a pergunta que ecoa é simples: o que acontece com uma sociedade que transforma a vida íntima em processo e o amor em risco jurídico?

A resposta ainda não chegou. Mas o silêncio entre homens e mulheres cresce como quem anuncia que, se nada mudar, o futuro vai bater na porta – e talvez já não exista mais ninguém do outro lado para abrir. Enquanto isso, os últimos românticos ainda resistem. Mas até quando?

* Fabio L. Borges, jornalista, cronista e poeta gaúcho

Compartilhe esta notícia:

Voltar Todas de Colunistas

Capital e natureza: a nova fronteira do investimento
Pode te interessar
Baixe o app da TV Pampa App Store Google Play