Sábado, 24 de fevereiro de 2024

Sexo, mentira e extorsões no “golpe dos nudes”

Há cerca de um ano, um homem entrou desesperado na 16ª Delegacia Policial, em Planaltina (DF). Ele implorava para que não fosse preso injustamente e alegava que não tinha mais dinheiro, porque já havia depositado R$ 1 milhão — quantia acumulada durante toda a vida — na conta de policiais de outros estados, que exigiam cada vez mais para não prendê-lo por pedofilia.

Era a primeira vítima de uma quadrilha que se especializou em aplicar o chamado “golpe dos nudes”. Desde então, a Polícia Civil passou a investigar a ação desses golpistas e uma ação conjunta, fruto deste inquérito, envolvendo agentes do DF, Goiás e Rio Grande do Sul prendeu quatro integrantes do grupo criminoso: três homens e uma mulher. Na chamada Operação Falso Nude, foram apreendidos carros, como um Chevrolet Camaro avaliado em pelo menos R$ 200 mil, e foi feito o bloqueio de mais de R$ 1 milhão em ativos financeiros.

Os investigadores ainda procuram por outros três integrantes da quadrilha, que atuam como laranjas e já constam no inquérito. De acordo com a polícia, eles movimentaram, através do mesmo golpe, mais de R$ 5 milhões em apenas três meses, fazendo vítimas em todo o país. Os suspeitos presos foram indiciados por 19 extorsões, organização criminosa e lavagem de dinheiro.

Mandados falsos

O golpe é aplicado sempre da mesma maneira e envolve mentiras cruéis. Uma mulher — através de um perfil falso — procura pela vítima nas redes sociais e convida para trocar mensagens. O homem é seduzido pelo assunto e, durante a conversa, ela envia uma foto nua. Logo em seguida, um falso pai entra em contato com a vítima, dizendo que a filha dele tem apenas 13 anos e exige altos valores em dinheiro para não levar o caso à polícia. Depois, o “pai”, então, passa a extorquir de várias outras formas.

Primeiro, os golpistas exigem o pagamento de um falso tratamento psiquiátrico para a criança, que sequer existe. Depois, eles vão ainda além: inventam que a menina cometeu suicídio, apresentando uma certidão de óbito falsa, e demandam o pagamento de um falso sepultamento. E não param por aí. Em seguida, exigem ainda uma nova quantia em dinheiro para celebração de um acordo pelos danos morais e materiais causados. Após este pagamento, fingem estar em uma delegacia, onde passam a ameaçar e mais uma vez extorquir a vítima, dizendo ter provas para prendê-lo por pedofilia.

Os investigadores descobriram, ainda, que mesmo após o pagamento de todas as formas de extorsão do golpe, a quadrilha ainda colocava um falso chefe de polícia para entrar em contato com as vítimas, exigindo novos pagamentos — etapa onde estava o homem que, há um ano, deu início a toda a investigação. Só ele, uma única vítima, teve R$ 1 milhão extorquido pelos bandidos.

“O golpista falava que conhecia policiais e passava a extorquir as vítimas, para que se “se livrassem” do suposto problema. Posteriormente, ligavam falsos policiais, que mostravam armas, simulavam uma falsa unidade de polícia, mostravam símbolos da polícia, e exigiam grandes quantias para que a vítima não fosse presa”, conta o delegado Diogo Cavalcante, da 16ªDP.

“Eles simulavam até mandados de prisão com dados da vítima e encaminhavam, para que ela se sentisse ameaçada. Aqui no Distrito Federal, essa investigação começou há 1 ano, quando uma vítima nos procurou e disse que já havia feito 19 transferências, que totalizavam um prejuízo de R$ 1 milhão”.

A tendência, diz o delegado, é de que outras extorsões sejam descobertas, já que o inquérito será compartilhado com delegacias de outros estados pelo Brasil.

“Esse grupo tinha base no Rio Grande do Sul, mas atuava fazendo vítimas por todo País. As provas serão compartilharas com outras polícias judiciárias para que os criminosos possam responder por todos os crimes cometidos”, acrescentou Cavalcante.

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