Sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 12 de fevereiro de 2026
Perder um animal de estimação é perder um tipo muito específico de amor: cotidiano, silencioso, constante. Para quem conviveu com um pet, a ausência não é pequena – ela atravessa a casa, a rotina e o coração. Um estudo recente publicado na revista PLOS One mostra que o luto por um animal pode ser tão intenso quanto (ou até mais doloroso) do que a perda de uma pessoa querida.
O estudo mostra também que cerca de 7,5% das pessoas que perderam seus animais de estimação sofreram de “transtorno de luto prolongado”, uma proporção semelhante àqueles que perderam um amigo próximo. Essa proporção ficou apenas ligeiramente abaixo da observada em pessoas que desenvolveram a condição após a morte dos avós (8,3%), de um irmão (8,9%) ou mesmo um cônjuge (9,1%). Apenas aqueles que perderam pais ou filhos apresentaram taxas significativamente mais elevadas do transtorno, de 11,2% e 21,3%, respectivamente.
Essa condição é definida como “sintomas de luto intensos e persistentes que não são apenas angustiantes por si só, mas também associados a problemas de funcionamento”, com duração de 12 meses ou mais após a perda”. No entanto, atualmente, essa classificação inclui apenas perdas humanas.
Mas opara os pesquisadores da Universidade de Maynooth, na Irlanda, os critérios diagnósticos podem estar deixando de lado algo importante. O que mais importa não é quem morreu, mas a qualidade e o significado do relacionamento com o falecido.
Um dos principais fatores de risco para o transtorno do luto prolongado é a falta de apoio social após a perda. E isso é o que pessoas que perdem seus animais de estimação frequentemente enfrentam.
A psicóloga com foco no luto e mãe de pet Natália Nigro de Sá sentiu isso na pele.
“Eu e a minha esposa perdemos duas filhinhas, uma cachorrinha, que é a Lola, e a gatinha Frida. Foi bem dramático. Eu sempre trabalhei com luto, mas só que depois que perdi as duas senti na pele uma invalidação que eu conhecia só na teoria. Foi muito duro, porque percebi como realmente perder um pet pode ser solitário e muito pouco acolhido. As pessoas não entendem muito bem”, conta Natália, que também é doutora em ciências pela USP.
De acordo com a psicóloga especializada em luto pet e comportamento humano Juliana Sato, o luto por um animal, entra na categoria de luto não reconhecido.
“Isso quer dizer o quê? Que a sociedade não reconhece como um luto válido. Porque não enxerga e não valoriza o vínculo que a pessoa tem com o seu pet. A pessoa que vivencia esse luto tem uma grande probabilidade de não receber suporte. Muita gente acaba nem oferecendo condolências. Nem dizem: “Sinto muito pela sua perda”. E o fato de nem ouvir isso, faz com que a pessoa se sinta muito isolada. Muitas vezes, o próprio enlutado não reconhece o seu luto”, explica.
Desafios únicos
A morte de um animal de estimação traz desafios únicos. Os tutores podem ter que decidir sobre a eutanásia de seu bichinho, por exemplo. Para alguns, isso traz conforto ao acabar com o sofrimento do pet, mas não significa que seja uma decisão fácil. Para outros, é traumático e circunstâncias traumáticas são outro fator de risco para o transtorno de luto prolongado.
A falta de apoio, da sociedade, das pessoas próximas e até mesmo do trabalho podem servir de gatilho para condições como ansiedade e até mesmo para o transtorno de luto prolongado.
Idosos, pessoas que moram sozinhas e crianças podem sofrer ainda mais com a morte de um pet e precisam de muito apoio. No caso das crianças, Juliana recomenda ser sincero e contar que o que de fato aconteceu com o pet, em vez de dizer que ele virou uma estrelinha no céu.
“Explicar para a criança não vai traumatizá-la. Muito pelo contrário. É lógico que temos que ter todo um cuidado de acordo com a idade da criança. Mas é muito importante a criança vivenciar esse processo junto com a família e deixá-la participar dos rituais de despedida, escrevendo uma cartinha ou fazendo uma oração para o pet, por exemplo”, explica a psicológa.
Entre as estratégias que ajudam a passar por esse momento de luto estão os rituais, como escrever um diário a respeito da vida do pet, um scrapbook do que você gostaria de falar para esse pet, fazer uma playlist de músicas que te lembram esse pet. Mas a mais importante, segundo Juliana, é falar sobre a experiência, sobre a dor, sobre a saudade.