Sábado, 02 de maio de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 1 de maio de 2026

Evento em Santa Rosa inaugura um novo eixo do agronegócio ao integrar produção, ciência, direito, energia e clima — e transforma o debate da soja em agenda estratégica de futuro
A primeira edição do Fenasoja Soy Summit — Carbono Zero, realizada dentro da Fenasoja 2026, marcou mais do que a estreia de um novo evento técnico: consolidou uma mudança de paradigma no agronegócio brasileiro. Ao integrar, em uma mesma linha de raciocínio, produção, ciência, ambiente regulatório, mercado e clima, o encontro revelou que a soja — principal ativo do agro nacional — entrou em uma fase em que produtividade já não basta. O centro da competitividade passa a ser organização, previsibilidade e capacidade de adaptação.
Não foi um evento para descrever o agro — foi um movimento para reorganizar sua lógica.
A abertura, conduzida por Douglas Marques, reuniu lideranças institucionais e políticas em torno de uma mensagem convergente. O presidente da Fenasoja 2026, Marcos Eduardo Servat, sintetizou o espírito do encontro: “Quando a gente quer que algo mude, a gente precisa ocupar esses espaços”. A frase estabelece o ponto de partida: o setor deixa de reagir e passa a estruturar agenda. Jerônimo Georgen, embaixador do Summit, avançou na mesma direção ao afirmar: “Faltava um momento para conectar a história de Santa Rosa com o debate do agro contemporâneo”. A criação do evento responde, portanto, a uma lacuna estratégica — a ausência de um espaço de formulação contínua dentro do calendário do agro.
No primeiro bloco, “Oportunidades da soja: ciência, biotecnologia e sustentabilidade”, emergiu um dos principais gargalos do setor: a distância entre eficiência produtiva e reconhecimento internacional. “A tecnologia que o Brasil já tem no campo é subestimada. O desafio agora é medir e comunicar isso ao mercado global”, afirmou Tiago Maique. A declaração expõe um problema que transcende a lavoura — trata-se de narrativa e posicionamento global. Júnior Rosa de Almeida, ao abordar a integração entre agroindústria e energia, reforçou a mudança de lógica: “Essa combinação entre as empresas nos permite ganhar eficiência, escala e competitividade”. O bloco deixou claro que inovação deixou de diferenciar — passou a definir quem permanece competitivo.
O segundo bloco, “Ambiente de negócios: crédito rural e segurança jurídica”, deslocou o debate para sua base estrutural. Renato Buranello apresentou um diagnóstico direto sobre os riscos do sistema: “Decisões judiciais que desconsideram o ciclo produtivo afetam o financiamento das próximas safras”. Ao tratar do mercado de carbono, ampliou a análise: “O produtor já tem ativos ambientais — o desafio é transformar isso em receita”. Daniel Carnio Costa completou com uma leitura institucional precisa: “A lei deve organizar sem sufocar a atividade econômica”. Nesse ponto, o evento atingiu um nível raro de profundidade ao tratar o agro como sistema jurídico-financeiro integrado.
No terceiro bloco, “Mercado e economia: soja como plataforma energética”, a soja foi reposicionada como ativo estratégico da transição energética global. Erasmo Battistella sintetizou essa transformação: “A soja é o centro da equação energética limpa”. A afirmação desloca o debate da commodity para a geopolítica energética. Tiago Carpenedo trouxe o contraponto necessário ao destacar entraves estruturais: “O Brasil tem potencial, mas ainda perde competitividade para países mais simples de investir”. A síntese revela um paradoxo recorrente — excelência produtiva convivendo com limitações institucionais.
O quarto bloco, “Clima e gestão”, trouxe o debate para o campo da urgência. Após sucessivos eventos extremos no Sul do Brasil, o clima deixou de ser variável externa para se tornar componente central do negócio. Paulo Hermann foi incisivo: “Não podemos ser chorões — precisamos fazer a solução acontecer”. Luís Carlos Molion reforçou a necessidade de adaptação técnica: “O solo é a caixa d’água”. Luciano Schwerz dimensionou o impacto econômico das perdas recentes e apontou o caminho: “Não existe solução imediata. É preciso investir em conhecimento e gestão”. O bloco consolidou o entendimento de que resiliência produtiva passa, necessariamente, por planejamento e manejo.
O diferencial do Soy Summit esteve menos no volume de informações e mais na forma como organizou o pensamento do setor. Ao integrar áreas tradicionalmente fragmentadas, o evento construiu uma leitura sistêmica do agronegócio — algo ainda pouco presente na cobertura convencional.
No encerramento, Jerônimo Georgen sintetizou o impacto com precisão: “Foi um dia de universidade”. A definição traduz o papel que o encontro passa a ocupar: um espaço permanente de construção de conhecimento aplicado.
Ao final, a principal conclusão não está apenas no conteúdo apresentado, mas no movimento que ele inaugura. Santa Rosa deixa de ser apenas o berço histórico da soja brasileira e se consolida como território onde seu futuro deixa de ser previsto — e passa a ser construído. (por Gisele Flores – gisele@pampa.com.br)