Sexta-feira, 19 de julho de 2024

Temos nosso próprio tempo

Todo ano que principia, queiramos ou não, nos atira nas ventas aquele surrado convite à introspecção, à reflexão, mesmo que seja por alguns mirrados minutinhos; e, ainda assim, a dita-cuja nos deixa aquela pesada nuvem sorumbática sobre nosso semblante.

E, nesse clima pensativo, que passa bem rapidinho, reflete cristalinamente os versos de uma canção de Renato Teixeira e Almir Sater, que nos diz: “dezembro vai, janeiro vem/O tempo passa veloz como um trem”.

Pois é. E é bem assim que nos sentimos todos os anos, quando o “ano velho” deixa a arena do momento presente para que “outro tempo” possa ser o novo cenário do espetáculo da nossa vida.

Aliás, é mais do que significativo que o nome do primeiro mês do ano honre o deus Jano, a divindade das mudanças, das passagens, abençoando os começos.

Como todo mundo sabe, as imagens dessa divindade, que nos foram deixadas pelos romanos, o representavam com duas faces; uma voltada para trás e outra para frente, simbolizando esse divisor de águas, nos convidando a refletir sobre tudo o que fizemos e a respeito de tudo o que deixamos de realizar.

Nos convida a refletir com os olhos voltados para tudo aquilo que devemos realizar e que podemos nos negar a fazer, para o futuro não repetir o passado, porque o tempo não para, como cantava Cazuza, num tempo que a muito se foi e nunca mais será.

Ele, o tempo, não para e segue em disparada, arrastando-nos para o por vir, devorando nossa carne, consumindo nossa mente, sem muita cerimônia, mesmo que insistamos em ficar agrilhoados a imagem pretérita de uma vida que, como diria Manuel Bandeira, poderia ter sido, mas não foi.

Por conta disso, não são poucas as pessoas que dizem para si e para os seus que, já que o tempo não para, o certo seria aproveitar a vida e beber tudo o que ela tem a oferecer em sua generosa cornucópia.

Aproveitar a vida. Eis aí uma expressão traiçoeira. Bem traiçoeira.

Quando dizemos que queremos aproveitar tudo o que ela tem a nos oferecer, temos que ter uma resposta minimamente suficiente para a espinhosa pergunta de Antônio Abujamra, que era apresentada por ele aos seus convidados: o que é a vida?

Sim, a pergunta é cabeludíssima, porque refere-se ao sentido último da dita-cuja e, por isso mesmo, a meditação em torno e a partir dela é tão importante para que possamos, realmente, aproveitar bem a nossa rápida passagem por esse vale de lágrimas.

Sendo assim, podemos dizer que aquilo que resiste ao tempo seria o trem que impregna de sentido a nossa existência e, por essa razão, aquilo que leva-nos à eternidade é o que há de mais importante, como nos ensina Johann Goethe.

E, por essa mesmíssima razão, que o mesmo nos diz que o que há de mais importante na vida não é sabermos onde estamos, mas sim, para onde vamos e, pode ter certeza, que não é para uma valeta, pois, como bem nos lembra Santo Antônio de Pádua, nesta vida, tudo, não acaba aqui.

Ora, tendo isso em nosso horizonte, podemos, sem pestanejar, neste momento, perguntar: qual direção realmente queremos dar para a nossa porca vida neste ano que mal começou a desabrochar? Para a lama de uma valeta ou para além azulado do firmamento?

Enfim, independente da nossa resposta a essa marota questão, cantemos, a plenos pulmões, junto com Renato Russo, que, diante dessas indagações, temos todo o tempo do mundo, mas não temos tempo a perder, porque nossa história não estará pelo avesso assim, sem final feliz e, ao final, dando certo ou não, todos teremos coisas bonitas pra contar.

(*) professor, escrevinhador e bebedor de café. Mestre em Ciências Sociais Aplicadas. Autor de “A Verticalização da Barbárie”, entre outros ebooks.

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