Domingo, 01 de fevereiro de 2026

Tensão no IBGE: Às vésperas da divulgação do PIB, exonerações causam inquietação sobre credibilidade do instituto

Após uma ligeira trégua, 2026 começou bastante agitado no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 19 de janeiro, o instituto confirmou a exoneração da pesquisadora Rebeca Palis, até então à frente da Coordenação de Contas Nacionais, área que responde pelo cálculo do Produto Interno Bruto (PIB). Em solidariedade, pelos menos outros três gerentes da área que era coordenada por Rebeca pediram exoneração, mas seguirão nos postos até a divulgação do PIB, no dia 3 de março.

Além disso, na quarta-feira (28), outra servidora, a gerente Ana Raquel Gomes da Silva, foi exonerada da Gerência de Sistematização de Conteúdos Informacionais (GECOI).

Com isso, reacende-se um clima de tensão entre o presidente do instituto, Marcio Pochmann, e os servidores. Para o sindicato da categoria, Pochmann dá continuidade a uma caça às bruxas “contra servidores que se posicionam na defesa técnica, institucional e histórica do IBGE”.

Antes da exoneração de Ana Raquel, Pochmann já havia rebatido as acusações de autoritarismo e afirmou que sua gestão serve para “tomar decisões”. Ele também propôs que seus críticos estudassem o que foi o instituto nos anos 1960 e 1970, sob a ditadura militar, e indagou “quantos colegas de IBGE foram presos, demitidos, perseguidos” naquela época.

Além disso, nas redes sociais, Pochmann afirma que sob sua administração o IBGE está passando por um salto organizacional e produtivo. Já entre os servidores há relatos de deterioração do clima no ambiente de trabalho.

Os desentendimentos entre Pochmann e os técnicos do IBGE não são de hoje. Pochmann tentou emplacar uma fundação batizada de IBGE+, que prestaria serviços para organizações privadas. Já os servidores apelidaram o projeto de “IBGE paralelo”, por entenderem que ele representava “risco institucional”. Após muita celeuma, o projeto foi suspenso.

Fato é que o clima beligerante no principal provedor de estatísticas do País em nada contribui para a solidez institucional do Brasil. Muito pelo contrário.

Credibilidade, como se sabe, se constrói lentamente, mas desvanece em um estalar de dedos. Tudo o que o Brasil não precisa é de que a população, os agentes econômicos e os investidores coloquem sob suspeição o trabalho de uma instituição de serviços tão fundamentais quanto o IBGE.

Nos EUA, por exemplo, o presidente Donald Trump demitiu, em agosto de 2025, a chefe do BLS, o órgão estatal que compila estatísticas de emprego, porque discordou dos dados divulgados. Pior: acusou o órgão de fraudar números para favorecer seus adversários, sem apresentar provas. Não é possível dimensionar o estrago que isso causa na confiança sobre o trabalho do BLS.

Por aqui, espera-se que a beligerância no IBGE seja apaziguada o quanto antes, e que o instituto possa continuar realizando seu importante trabalho com o rigor técnico necessário, cumprindo o calendário de divulgações determinado.

É preciso reconhecer, porém, que, em meio a uma onda de exonerações e troca de acusações, a execução a contento desse trabalho torna-se mais difícil. (Opinião/O Estado de S. Paulo)

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