Domingo, 17 de maio de 2026

Terapia que promete reverter o envelhecimento dos olhos está em teste com humanos

Pela primeira vez, uma terapia que promete reverter o envelhecimento está em teste com seres humanos. Um pequeno grupo de voluntários entrou em recrutamento este mês nos Estados Unidos para receber um tratamento que acena com a promessa de rejuvenescer a retina e, dessa forma, tratar o glaucoma e uma forma de neuropatia óptica. Se tiver êxito, fará com que a retina volte a um estado saudável, anterior ao surgimento de doença.

O método para a retina foi desenvolvido pela empresa americana Life Biosciences e chamado ER-100. A grosso modo, a técnica faz com que as células envelhecidas regridam a um estado de “juventude” e sem lesões.

No glaucoma, a pressão alta dentro do olho danifica o nervo óptico. Já a Neuropatia Óptica Isquêmica Anterior Não Arterítica (NOAINA) também é chamada de acidente vascular do olho. Ela causa perda súbita, indolor e geralmente unilateral da visão devido à falta de sangue no nervo óptico. Para ambas as condições, não há tratamento eficiente.

Nos testes, vírus carregando três genes de reprogramação são injetados no olho do paciente. Os vírus usados, uma forma de adenovírus geneticamente modificados, são incapazes de causar doença. Eles são capazes de inocular os genes diretamente no núcleo das células. Ao todo, 18 pessoas serão tratadas (12 com glaucoma e seis com neuropatia) e se aguarda os resultados no ano que vem.

A tecnologia se baseia na descoberta vencedora do Prêmio Nobel, há 20 anos, de que introduzir alguns genes “de controle” numa célula faz com que ela volte a ser uma célula-tronco, como as encontradas no embrião e que originam todos os diferentes tipos de células do corpo humano.

Esses genes são conhecidos como fatores Yamanaka (em alusão a seu descobridor, o japonês Shinya Yamanaka) e funcionam como uma espécie de botão de “reinicialização de fábrica” para células. Porém, devido ao risco de provocarem uma proliferação desenfreada de células e, assim, tumores, cientistas desenvolveram a estratégia de reprogramação parcial. A proposta é limitar a exposição aos genes ou usar apenas parte deles. A ER-100 é derivada desses estudos.

O método é fruto das pesquisas com células-tronco que prometeram muito, mas até agora pouco entregaram. Pois, após quase duas décadas de espera, esse é o primeiro teste de terapia de reprogramação celular.

É um instrumento poderoso, que rejuvenesce ligando e desligando genes. Se der certo, devolverá aos voluntários a visão de sua juventude. Mas há riscos. Inclusive o de câncer, já observado em animais em testes de laboratório em outros estudos.

A terapia da Life Biosciences foi aprovada nos testes de segurança em animais. Em tese, modificações no método controlaram essa possibilidade. Mas, não à toa o alvo são pacientes com doença avançada, sem opção terapêutica. Além disso, o olho é um órgão não vital, pequeno e menos complexo de controlar.

No teste, os genes de reprogramação são controlados por uma espécie de interruptor genético, que os ativa apenas enquanto os pacientes tomarem uma dose baixa do antibiótico doxiciclina. A princípio, eles tomarão o antibiótico por cerca de dois meses, enquanto os efeitos são monitorados.

Stevens Rehen, cientista do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), pioneiro no Brasil em pesquisas de reprogramação celular, explica que a reprogramação parcial de fato pode reverter mudanças genéticas associadas ao envelhecimento. Segundo ele, dados da expressão dos genes de mais de 40 tecidos humanos e 20 doenças identificaram uma tendência natural de células perderem gradualmente sua identidade com o envelhecimento. Com a aplicação dos fatores de reprogramação, se viu a reversão ao padrão jovem.

“Só que ainda não sabemos com certeza se as alterações nos genes são causa ou consequência do envelhecimento. O ensaio clínico em andamento poderá responder a essa questão em humanos”, observa Rehen.

A retina é composta de neurônios que não se dividem na vida adulta, são muito vulneráveis a dano oxidativo e têm baixíssima capacidade regenerativa, diz Rehen. Por isso, se torna um alvo ideal: há muito a recuperar e pouca interferência de renovação celular normal.

“É um teste promissor, mas não se deve esperar um milagre de rejuvenescimento de um órgão. E sim um primeiro passo para percorrer um longo caminho. De qualquer forma, pode representar um avanço para tratar o glaucoma, que se torna um problema de saúde publica cada vez maior à medida que a população envelhece”, salienta o neurocientista Mychael Lourenço, à frente do Laboratório de Neurociência Molecular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e também apoiado pelo Ciência Pioneira/IDOR.

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