Terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Terras raras: entre a transição energética e o dilema ético brasileiro

As chamadas “terras raras” não são tão raras quanto o nome sugere. Trata-se de um grupo de 17 elementos químicos essenciais para a indústria moderna, presentes em ímãs de alta performance, baterias, turbinas eólicas, carros elétricos, celulares, computadores e até em sistemas de defesa militar. Em outras palavras: sem terras raras, não há transição energética, não há tecnologia verde, não há futuro digital. E, no entanto, o Brasil, dono de reservas significativas, responde por menos de 1% da produção mundial.

Por que o mundo está atento às terras raras?

A corrida global por esses minerais se intensificou porque eles são insubstituíveis em aplicações estratégicas. Um carro elétrico pode conter até 10 quilos de terras raras em seus motores e baterias. Uma turbina eólica de grande porte exige centenas de quilos desses elementos para funcionar. Já na indústria militar, eles são usados em radares, mísseis e sistemas de comunicação. Estima-se que a demanda global por terras raras possa dobrar até 2030, impulsionada pela transição energética e pela digitalização da economia.

O mapa geopolítico das reservas

Hoje, a China domina o setor: concentra cerca de 60% da produção e controla boa parte da cadeia de processamento. Outros países, como Estados Unidos, Austrália e Mianmar, também possuem reservas expressivas. O Brasil, por sua vez, aparece timidamente, apesar de possuir jazidas relevantes em Goiás, Minas Gerais e, sobretudo, na Amazônia. Essa disparidade não é apenas técnica: é geopolítica. Quem controla terras raras controla o ritmo da inovação tecnológica e, por consequência, exerce poder econômico e militar. Não é à toa que vemos países tentando se apropriar de territórios e influenciar políticas de exploração mineral em regiões estratégicas.

O dilema ambiental e ético

A mineração de terras raras é complexa e envolve riscos ambientais sérios. O processo de extração e separação química pode gerar resíduos poluentes e contaminar solos e rios. No Brasil, parte das reservas está localizada em áreas sensíveis, como a Amazônia e terras indígenas. Isso coloca o país diante de um dilema: como conciliar a necessidade de explorar esses recursos com a preservação ambiental e o respeito às comunidades locais? Como ativista da transição energética, reconheço que este é um tema conflitante. Precisamos das terras raras para viabilizar tecnologias limpas, mas não podemos repetir os erros de um extrativismo predatório que destrói ecossistemas e culturas.

O risco da desinformação

Há muita desinformação circulando sobre o tema. Alguns acreditam que terras raras são substituíveis ou que o Brasil não possui reservas significativas. Outros minimizam os impactos ambientais. A verdade é que não existe transição energética sem enfrentar essa questão de frente. O país precisa investir em pesquisa, em tecnologia de processamento e em políticas públicas que garantam exploração responsável. Ficar de fora dessa corrida é abrir mão de protagonismo e aceitar o papel de mero fornecedor de matéria-prima barata.

O papel do Brasil

O Brasil não pode se contentar em ser apenas um “entregador de minério”. É urgente que o país assuma protagonismo na cadeia de valor, transformando terras raras em produtos finais de alta tecnologia. Isso significa investir em indústrias de baterias, motores elétricos, turbinas e equipamentos digitais. Significa também criar mecanismos de proteção ambiental e social, garantindo que a exploração não se torne mais um capítulo de devastação da Amazônia.

Entre a riqueza e a responsabilidade

Estamos diante de uma encruzilhada histórica. O subsolo brasileiro guarda uma riqueza estratégica para o futuro da humanidade, mas nossa produção ainda é insignificante no cenário global. A transição energética exige que enfrentemos esse paradoxo: explorar para avançar, mas explorar com responsabilidade. O Brasil precisa decidir se continuará à margem, exportando matéria-prima, ou se assumirá o papel de protagonista, liderando a transformação tecnológica e energética.

O debate é ético, político e ambiental. Mas é também uma oportunidade única. Se quisermos um futuro sustentável, não podemos ignorar que a riqueza está sob nossos pés. O desafio é transformar essa riqueza em desenvolvimento, sem abrir mão da preservação.

* Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética

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