Terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Tradição mortal: Estudo aponta 166 substâncias tóxicas em versões atuais de lança-perfume

Do alto do trio elétrico em um dos megablocos deste pré-carnaval, o MC fez a multidão pular com um funk sobre a moça que “só quer saber de usar lança”. Anos antes, na década de 1980, Rita Lee já tinha estourado com o sucesso pop “Lança perfume”. A onda que atravessa gerações, proporcionada por um combustível da folia nos bailes e nas ruas, é quase centenária: a revista Cruzeiro, em edições de 1929, registra as primeiras aparições em festas cariocas e, também a partir do início do século passado, o produto passou a ser anunciado nos jornais.

“O lança-perfume chega ao Brasil no início do século XX. Era produzido na França, mas chega via Argentina, a princípio como um exalador de cheiro que purificava o ambiente. As primeiras referências que a gente tem do uso no carnaval são de 1920. Inclusive, algumas marcas passaram a ter nomes Pierrot, Colombina. E a partir daí não para”,  ensina o escritor e historiador Luiz Antonio Simas.

Popular e supostamente inocente, o líquido à base de cloreto de etila virou presente de pais para filhos no carnaval. Eram só umas espirradinhas no salão. Até que o presidente Jânio Quadros, cujo jingle de campanha apresentava “a certeza de um Brasil moralizado”, proibiu seu uso em decreto de 1961, após o registro de casos de embriaguez e morte.

Décadas se passaram. O nome encurtou — para a galera, agora é apenas “lança” — e a receita ganhou fórmulas de altíssima toxicidade. Com o aumento da demanda, a clandestinidade na produção tomou conta.

Um estudo inédito do Núcleo de Análises Forenses (NAF) do Instituto de Química da UFRJ revela que mais de cem substâncias tóxicas foram encontradas em amostras de apreensões da Polícia Civil entre os anos de 2014 e 2024. O levantamento, parte de uma parceria entre as entidades, contou também com pesquisadores da Faperj e da Fiocruz.

Cola de sapateiro na receita

Gabriela Vanini Costa, coordenadora do NAF, conta que foram identificados elementos de produtos de limpeza e cola de sapateiro na composição dos inalantes, entre outros solventes perigosos, em amostras apreendidas pela polícia que seriam vendidas como loló ou lança.

“O que me chamou mais a atenção foi a ausência de éter nas amostras, já que a presença dessa substância costuma ser característica, segundo livros e sites informativos. Foram realizadas análises forenses de inalantes com estruturas químicas diferentes das já estudadas por pesquisadores. O caso chamou a atenção das autoridades devido ao grande número de óbitos pelo consumo desse inalante. Foram encontradas 166 substâncias químicas tóxicas em 16 amostras da droga de abuso. Daí a importância de desenvolver projetos científicos na área, para o mapeamento químico dessas novas substâncias”, frisa a pesquisadora.

Nas festinhas de playboys, nos blocos democráticos, em diferentes bairros da cidade e nas favelas, lança e loló são usados por quem busca psicoativos para sentir euforia e desinibição. Vêm em frascos de plástico ou vidros de 50 a 200ml, alguns com acréscimo de essências de frutas como banana, uva ou laranja. Mesmo reconhecidamente perigosa para a saúde, a droga virou modinha. Chefes do tráfico portam frascos de vidro e exibem sua “droga de OG”. A sigla vem do inglês original gangster, mas também pode querer dizer “original”, em contraposição ao black lança, de valor inferior.

A popularização do produto ilícito pode ser medida por seu alcance cultural: a droga é mencionada em letras de brega funk, de pagodão baiano, de sucessos pop. Alcança públicos variados. Adultos exploram os efeitos das substâncias de evaporação rápida em blocos ou no sexo. Crianças e adolescentes enveredam por esse caminho arriscado movidos pelo desejo de pertencer à turma da ostentação: exibem e compartilham nas redes sociais emojis de tubos verdes que remetem aos produtos químicos.

Inflamação, coma e morte

“Bafora e passa” é uma das regras dos adeptos para tentar conter danos. O uso permanente e contínuo é prejudicial. Há ainda risco de vício e intoxicação, que podem ser irreversíveis, além de overdose.

M., não identificada pela reportagem, relatou numa rede social que se viciou em lança, foi parar no hospital mas nem assim abandonou o inalante.

“Menos de um mês depois, voltei a usar normalmente. Eu já não sentia onda no lança, no black lança nem na loló. Já me via em vício”, disse ela, que em seguida teve uma inflamação no estômago, sentiu fortes dores e parou de vez.

Segundo o toxicologista Álvaro Pulchinelli, presidente do Conselho de Ex-Presidentes da SBPC/ML, os inalantes podem acarretar problemas respiratórios, gastrointestinais, hepáticos e cardíacos. Além, é claro, de efeitos no cérebro.

“Essas substâncias inalantes são muito irritativas para o músculo cardíaco, propiciam a formação de arritmias, ou seja, o coração começa a bater de forma acelerada e sem ritmo. Isso pode ser potencialmente fatal”, diz o médico. “A pessoa também pode entrar num quadro de depressão profunda do sistema nervoso, chegar a um quadro de coma, depressão respiratória e eventualmente à morte.”

 

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