Quinta-feira, 29 de janeiro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 29 de janeiro de 2026
O empresário Daniel Vorcaro afirmou à Polícia Federal (PF) que o Banco Master enfrentava uma crise de liquidez e operava com um modelo de negócios fortemente ancorado no Fundo Garantidor de Créditos (FGC). A declaração reforça a avaliação de que a liquidação extrajudicial da instituição, decretada pelo Banco Central (BC), não foi uma decisão precipitada e expõe fragilidades na fiscalização do sistema financeiro, que exigem aprimoramento para evitar episódios semelhantes.
Trechos do depoimento que vieram a público indicam que Vorcaro atribui a derrocada do banco a uma suposta campanha difamatória conduzida por instituições de maior porte. Segundo ele, esses concorrentes, incomodados com o crescimento do Master, teriam defendido mudanças nas regras do FGC que acabaram por inviabilizar o modelo adotado. Especialistas do setor, no entanto, ressaltam que o fundo não tem como objetivo estimular a concorrência, mas proteger depositantes e preservar a estabilidade do sistema financeiro diante de riscos sistêmicos.
No relato à PF, Vorcaro disse ainda que o Master atendeu a todas as exigências feitas pelo BC durante as negociações de venda da instituição ao Banco de Brasília (BRB), mas que foi surpreendido pela intervenção decretada em novembro, quando já havia identificado um novo potencial comprador. O empresário também afirmou que não estaria submetido ao uso de tornozeleira eletrônica se tivesse influência política relevante em Brasília, apesar de pressões públicas registradas no Congresso Nacional e no Tribunal de Contas da União (TCU) relacionadas ao caso.
Há, contudo, avaliações divergentes. Em entrevista à Folha de S.Paulo, o ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga afirmou que, diante do impacto financeiro causado ao FGC, a autoridade monetária demorou a agir. Para ele, a desconfiança em relação ao Master já existia no mercado e o BC dispunha de instrumentos para fiscalizar a instituição, inclusive os fundos de investimento usados na estratégia de captação.
Para os investidores que aplicaram recursos em Certificados de Depósito Bancário (CDBs) do Master, o momento mais crítico ficou para trás. Após cerca de dois meses de espera, o FGC iniciou os pagamentos, o que reduziu parte da rentabilidade prometida, mas garantiu a restituição dos valores. Com o dinheiro liberado, clientes passaram a ser assediados por bancos e corretoras interessados em reter parte dos recursos devolvidos, alguns oferecendo produtos de risco semelhante.
A expectativa do mercado é de que uma parcela dos R$ 40,6 bilhões ressarcidos permaneça no sistema financeiro, ainda que haja maior cautela por parte dos investidores. Executivos do setor defendem mudanças nas regras do FGC. Em Davos, o presidente do Itaú, Milton Maluhy, afirmou ao jornal O Estado de S.Paulo que é necessário revisar o modelo de contribuições, incluindo plataformas e distribuidoras que comercializam esses produtos.
O debate tende a se intensificar com a possibilidade de uma chamada de capital do fundo. O FGC deve consumir cerca de um terço de sua reserva de liquidez com os desembolsos relacionados ao Banco Master e ao Will Bank, integrante do mesmo conglomerado e também liquidado recentemente. Para recompor o caixa, a entidade avalia antecipar contribuições futuras de seus associados.
O episódio reforça a necessidade de uma supervisão mais rigorosa do setor financeiro para coibir práticas que utilizem o FGC como mecanismo de expansão acelerada. No campo político, as conexões e a atuação de Vorcaro seguem sob escrutínio e ainda suscitam questionamentos.
(Com O Estado de S.Paulo)