Domingo, 11 de janeiro de 2026

Treinamento de força não é só para músculos: especialista revela impactos ocultos no cérebro

A velhice, diz Borges em Elogio da Escuridão, “pode ser o tempo da nossa felicidade”. Nem sempre é fácil aceitar a passagem do tempo, mas aqueles que o fazem aprimoram sua sabedoria e valorizam, com alegria, as memórias, as experiências e os tesouros acumulados que ninguém pode lhes tirar.

Fazer 50 anos não deveria ser motivo de lamentação, especialmente hoje, quando a expectativa de vida aumentou e existem métodos que ajudam a redefinir hábitos diários para prolongar o bem-estar físico e mental. Esse é o foco do psicólogo e biohacker Marcos Apud, figura de destaque no mundo do bem-estar e especialista em longevidade.

Sua jornada começou há mais de 20 anos, em uma conferência de psicoterapia em Roma, quando ficou chocado ao ouvir que “se você for psicoterapeuta, viverá 10 anos a menos”. Superado o choque inicial, decidiu provar que essa afirmação não precisava ser necessariamente verdadeira. Apud, autor de Muito Mais Que Humano e Neurolongevidade: Um Cérebro Que Dura Cem Anos, conversou com o jornal La Nación para explicar os princípios de como “hackear” o cérebro e melhorar a qualidade de vida.

Como você define biohacking?

É um estilo de vida; modificamos hábitos ligados aos nossos pilares fundamentais de bem-estar, como sono, alimentação, atividade física, gestão do estresse, suplementação, conexão com a natureza e higiene eletromagnética.

Quais são os principais objetivos?

Os biohackers buscam resgatar hábitos ancestrais — como a exposição ao frio e ao calor, à luz solar e à natureza — combinando-os com a tecnologia moderna. O biofeedback é exatamente isso: ciência, tecnologia e sabedoria ancestral combinadas para maximizar a biologia e a mentalidade. Usamos o corpo como um laboratório pessoal, medindo com dispositivos de monitoramento como mudanças na dieta, exposição à luz solar, exercícios, suplementação ou sono impactam nossa biologia. A ideia é dar suporte científico a práticas que nossos avós já conheciam: banhos frios, andar descalços ou jantares leves. Hoje, sabemos que essas rotinas melhoram a imunidade, a clareza mental, reduzem a inflamação, melhoram o sono e fazem parte de um estilo de vida alinhado aos nossos ritmos naturais.

O que são hacks?

Intervenções breves, pequenos atalhos que a maioria das pessoas pode aplicar e que têm alto impacto sistêmico. Elas produzem mudanças em todas as esferas do ser: corpo, mente, emoções, energia e espírito.

Pode dar exemplos?

O jejum é uma estratégia poderosa que consiste em passar um período sem comer. Ele traz benefícios físicos, mentais e emocionais, podendo ser aplicado em qualquer fase da vida. Seu impacto é sistêmico, beneficiando o corpo, a mente e a alma.

Por que o biohacking é importante?

Busca recuperar antigos hábitos ancestrais que nosso próprio projeto natural proporciona, mas que, devido a uma espécie de amnésia ancestral, esquecemos nos últimos 40, 50 ou 60 anos. São décadas em que temos destruído nossa força natural como espécie com estilos de vida urbanos, numa busca excessiva por conforto.

Como?

Com diferentes tipos de comportamento sedentário: inatividade física, conforto térmico (evitar temperaturas extremas) e sedentarismo cognitivo, com a perda de habilidades mentais e cognitivas, que, com o auxílio de tecnologias como a inteligência artificial, podem se agravar se não cuidarmos de nossas capacidades. Pensar será uma super-habilidade que os humanos possuirão em quatro ou cinco anos.

Qual é o hábito ou truque com maior impacto na qualidade de vida?

Dormir em jejum. Para isso, é preciso comer três horas antes de ir para a cama. Na biohacking, acreditamos que, ao retomarmos o hábito de dormir em jejum, recuperamos a grande capacidade de regeneração e manutenção que ocorre durante essas horas de sono e descanso. O ideal é jantar às 19h para dormir entre 22h e 22h30. Dessa forma, respeitamos o ritmo circadiano e podemos acordar naturalmente entre 6h30 e 7h. Não se trata apenas de dormir o número necessário de horas, mas de fazê-lo em sincronia com o nosso ritmo biológico. Se pararmos de enviar sinais ao corpo de que “é dia” quando, na verdade, é noite — por meio de telas e luz azul —, melhoraremos muito a qualidade do sono.

Por que limitar a ingestão de líquidos à noite?

“Você não precisa se hidratar à noite. Nosso corpo foi feito para se hidratar bem durante o dia. Eu recomendo beber água do mar. Combino água mineral com água do mar ou sal marinho para obter minerais e sal. A combinação ideal é um terço de água do mar em um copo de água mineral.”

Algum outro hábito importante?

Um dos hábitos mais recomendados é o jejum inteligente, que consiste em jejuar das 19h às 7h, e não das 23h às 23h. Outra dica eficaz é a exposição ao frio: um banho frio de um a três minutos ao final do banho matinal. Isso fortalece o sistema imunológico, aumenta a energia, melhora a concentração, eleva o humor e reduz a ansiedade. Pode ser um banho de gelo, mergulhar o rosto em uma tigela com água gelada ou até mesmo colocar os pulsos em água fria. Essas estratégias ativam o nervo vago, promovendo calma, relaxamento e redução do estresse.

Que tipo de treinamento você recomenda?

Treinamento de força vigoroso e sistemático. Após os 40 anos, muitas pessoas optam por aulas de zumba, natação, corrida ou elíptico. Tudo isso é ótimo para o coração, mas, sem o treinamento de força, a sarcopenia — perda de massa muscular — aumenta consideravelmente com a idade. Perdemos quase 5% da massa muscular por década. O objetivo não é fazer 40 repetições com pesos leves, mas realizar de cinco a oito repetições com peso desafiador. É possível fazer treinamento de força três vezes por semana, com sessões de cerca de 30 minutos.

Qual é a relação entre longevidade, biohacking e saúde cerebral?

Quando falamos da longevidade de um órgão tão importante quanto o cérebro, sabemos que certas práticas podem promover sua saúde e função a longo prazo. Uma delas é a dieta anti-inflamatória; outra, a prática sistemática do jejum; e outra ainda, o treinamento de força, que não só melhora a condição física, como também está ligado à prevenção da perda cerebral relacionada à idade.

O treinamento de força aumenta a plasticidade cerebral?

Sim. O treinamento de força estimula a produção de BDNF (fator neurotrófico derivado do cérebro), uma proteína que aumenta a plasticidade cerebral, promovendo a neurogênese e a criação de novas conexões neurais. A neurociência demonstra que a jovialidade cerebral depende mais do exercício físico do que do trabalho cognitivo. Como ele costuma dizer, “menos sudoku, mais suor”.

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