Quinta-feira, 15 de janeiro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 15 de janeiro de 2026
Ingressamos em mais um ano de eleições presidenciais. Nossa democracia amadurece, mas não sem ser diariamente testada. Vivemos, é importante frisar, em um tempo em que a política se transformou em arquibancada. De um lado, a direita que se apresenta como guardiã da moralidade, explorando medos difusos e prometendo soluções rápidas para problemas complexos. Do outro, uma esquerda fragmentada, ainda refém de antigas bandeiras e pouco capaz de se renovar diante de uma sociedade líquida, marcada pela velocidade da informação e pela erosão de referências coletivas.
O enfraquecimento da esquerda não se deve apenas a erros próprios, mas também ao esvaziamento da luta de classes, eixo que lhe dava sustentação histórica. Além disso, além dessa questão estrutural derivada da fragmentação do mundo laboral, fatores estratégicos, conjunturais e sociológicos também estão associados a esses novos desafios da esquerda, não apenas brasileira, mas mundial. No vácuo desse fenômeno, cresceu a direita populista, que soube explorar a fadiga do pensamento complexo, encontrando na simplificação bruta da realidade uma resposta para suas angústias. Muitos eleitores, cansados de lidar com contradições, abraçam narrativas simplistas e moralistas, mesmo que frágeis ou falsas, embaladas pelo discurso de ódio contra um inimigo difuso: o globalismo, a “cultura woke”, os supostos corruptores da família. É a velha fórmula do “nós contra eles”, agora turbinada por redes sociais que transformam ressentimento em combustível político.
Esse cenário, no entanto, não deve nos levar a descartar direita ou esquerda como polos de pensamento. Ambos carregam pressupostos valiosos que, longe de serem eliminados, deveriam ser combinados. A esquerda, em sua essência, nos lembra da importância da igualdade, da inclusão, da necessidade de reduzir desigualdades que corroem sociedades e perpetuam injustiças. A direita, por sua vez, defende valores de ordem, liberdade individual, responsabilidade e estabilidade, fundamentais para a vida em comunidade. Ambos os movimentos, antes de excludentes, compõem uma dialética imprescindível. Viver, sob o domínio monopolista de qualquer um deles é um convite ao autoritarismo e ao desvirtuamento de um vital equilíbrio, complexo é bem verdade, dessas forças.
O problema, então, não está nesses pilares, mas na captura deles por versões radicais e caricatas. Em outras palavras, está em suas respectivas exacerbações. Quando a direita se reduz a um conservadorismo agressivo, que demoniza adversários e aposta em fórmulas autoritárias, perde-se a riqueza de seu contributo. Quando a esquerda se fecha em discursos herméticos, pouco conectados com as ansiedades cotidianas das pessoas, também falha em sua missão histórica de transformação social.
O mundo moderno parece nos empurrar para uma escolha sem escolha: ou liberdade ou igualdade, ou direita ou esquerda, ou crente ou ateu. O resultado é sufocante, porque a vida real exige uma mescla, um trânsito entre polos que não são e não devem ser necessariamente irreconciliáveis. Tem que haver espaço para maior empatia e diálogo. A recusa em reconhecer essa complementaridade nos aprisiona em falsas dicotomias e coloca em risco o frágil tecido institucional que justamente depende desse sempre tenso acordo.
O risco é cair em um relativismo em que tudo vale e nada se sustenta. Mas o desafio maior é o oposto: resgatar o “pensamento complexo”, capaz de reconhecer que as tensões entre igualdade e liberdade, entre ordem e transformação, entre tradição e inovação, são motores de avanço, não obstáculos.
O que ameaça a democracia não é a existência de direita e esquerda, mas a radicalização de seus extremos. Enquanto insistirmos em viver de trincheira em trincheira, deixaremos o campo aberto para os populismos que alimentam o ódio, vendem ilusões e corroem as instituições. A maturidade política só virá quando compreendermos que não há sociedade justa sem liberdade, e não há liberdade verdadeira sem justiça social.

* Edson Bündchen