Segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Um técnico espanhol de um time indiano de futebol aparece como sócio de uma empresa que tomou um empréstimo de R$ 468,8 milhões do Banco Master. O treinador, porém, nega ter uma firma no Brasil

Um técnico espanhol de um time indiano de futebol aparece como sócio de uma empresa que tomou um empréstimo de R$ 468,8 milhões do Banco Master e, logo depois, investiu valores semelhantes em um fundo administrado pela Reag. O treinador, porém, nega ter uma firma no Brasil.

As investigações do Ministério Público Federal (MPF) apontam que o Master concedia empréstimos para empresas que, na sequência, repassavam quase todo o valor a fundos administrados pela Reag compostos por investimentos em papéis de baixo valor.

Uma delas é a BMQ Mirage, registrada em São Paulo como atacadista de produtos alimentícios. A empresa, com capital social de R$ 900 mil, recebeu R$ 468,8 milhões e, em seguida, aportou R$ 444 milhões em um fundo ligado à Reag que tinha em sua carteira de investimentos papéis considerados sem valor do extinto Banco do Estado de Santa Catarina (Besc).

A BMQ Mirage tem como sócio o espanhol Juan Pedro Benali Hammou, técnico do NorthEast United, clube da Super League indiana. Ele nega ter uma empresa no Brasil e disse desconhecer pessoas relacionadas ao negócio.

Na ficha cadastral da empresa consta que Juan Pedro é espanhol, o que ele confirma, e que mora em Abu Dhabi. O técnico diz já ter residido nos Emirados Árabes Unidos. Além disso, consta um CPF registrado em seu nome, com a data de nascimento correta, mas ele diz desconhecer o documento.

— Sou um treinador de futebol. Não faço ideia de uma empresa no Brasil. Só conheço pessoas ligadas ao futebol — disse.

Nos dados da empresa, consta que o contador João Fernando Machado de Miranda foi procurador do técnico de futebol em 2012, na época da constituição da firma. Procurado, Miranda afirmou que deixou a empresa em 2013, conforme registros.

Disse ainda que atuou com o aporte enviado por Juan Pedro, de R$ 500 mil, e que chegou a ter contato com ele na época. A empresa, segundo ele, foi fundada para atuar com cana de açúcar, mas o negócio não deu certo.

O portal O Globo obteve a procuração e questionou o técnico espanhol sobre o documento. Juan Pedro reconheceu que a assinatura é sua e se mostrou surpreso:

— Como eles conseguiram a minha assinatura? Estou ficando com medo.

O contrato de crédito da empresa junto ao Master, junto a pessoas a par das investigações, foi firmado em junho de 2024 e inclui uma cláusula que prevê que ao menos 90% do empréstimo deve ser depositado no fundo da Reag.

O advogado Pedro Jaguaribe, que defende a empresa, afirmou inicialmente que o empréstimo com Master foi liquidado. Depois, disse que a operação não se concretizou e o contrato foi desfeito. Sobre o aporte no fundo administrado pela Reag, ele classificou como uma “questão contábil” e disse que não houve investimento de fato, o que confirma a linha de investigação do Ministério Público Federal.

Questionado sobre a participação do técnico espanhol no negócio, o advogado explicou que ele é um sócio investidor estrangeiro e se disse surpreso com o fato de Juan Pedro ter negado ser sócio.

— Desconheço, até porque a gente está sempre falando com o Juan Pedro — disse.

Caminho do dinheiro

De acordo com as investigações da Compliance Zero, o Banco Master concedia empréstimos a empresas que, posteriormente, reaplicavam recursos em fundos de investimento da Reag.

O caminho do dinheiro mostra que milhões de reais eram transferidos de um fundo a outro por meio de uma série de transações-relâmpago em um curto período. Os fundos eram compostos por papéis de baixa liquidez.

Ao longo dessa cadeia de transações, os títulos presentes nos fundos passavam por reavaliação, o que resultava em um valor inflado, muito superior ao seu preço de fato. Em uma das transações investigadas, resultou em valorização de 10.502.205%, um percentual que não encontra respaldo em qualquer parâmetro de mercado.

No fim, os recursos voltavam ao Master por meio da compra de CDBs (um título de investimento). Com informações do portal O Globo.

 

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