Sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

loader

Uso excessivo de telas na pandemia provoca danos a saúde mental em crianças e adolescentes

Se escondermos a palavra “pandemia” do título desta matéria, provavelmente, estaremos diante de algo sabido e conhecido por muitos pais. Mas ainda assim, muito difícil de ser administrado no dia a dia. O uso excessivo de telas e redes sociais, tanto por crianças quanto adolescentes, é uma das lutas mais duras da contemporaneidade entre pais e filhos.

Agora some a este contexto a pandemia e você terá um exponencial alarmante de casos e causos como revela pesquisa da UFMG, Universidade Federal de Minas Gerais, em parceria com outras universidades do Brasil e coordenada pela neuropediatra Liubiana Arantes.

Mais de 6 mil pais de crianças e adolescentes foram ouvidos e uma das conclusões é que o uso durante a pandemia aumentou, extrapolando muito mais do que o tempo recomendado pela SBP, Sociedade Brasileira de Pediatria. Esta, recomenda, por exemplo, o tempo máximo de uma hora para crianças pequenas que ficaram, em média, quatro em frente a tela assistindo a desenhos e filmes no YouTube.

O mesmo aconteceu com os maiores que têm recomendação de duas horas diárias. Segundo 51% dos pais entrevistados, o tempo foi extrapolado excessivamente. Outros 24% responderam que os filhos tiveram entre duas e três horas de uso.

Uma outra pesquisa, Panorama Mobile Time/Opinion Box – Crianças e smartphones no Brasil, revelou um aumento de uso de telas entre a parcela de crianças de sete a nove anos durante a pandemia. Em um ano, o índice passou de 30% para 43%. Segundo os resultados da pesquisa, 19% das crianças dessa faixa etária utilizam smartphones diariamente por três horas, e outros 24%, por quatro horas ou mais.

Sabemos o quanto estes números, recomendamos pela SBP, já são difíceis de serem cumpridos em tempos normais, o que dirá ao longo do isolamento social em que crianças e adolescentes foram solicitados a passar ainda mais tempo de frente a tela por conta da migração das escolas para o ambiente remoto.

Sem dúvida esta foi a melhor forma de manter escola funcionando e as relações sociais relativamente vivas, mas ela mascarou contornos que eram bem delimitados dentro de casa. Muitas famílias impõem não só limite de tempo para uso, como restrições de navegação, e com a demanda por atividades escolares, trabalhos em grupo e ambientes de conversa, boa parte dos combinados foram derrubados.

O problema é que mesmo com o fim do isolamento social e retorno das escola às atividades presenciais, crianças e adolescentes continuam fazendo uso excessivo das telas e das redes sociais, o que tem causado dependência e vício, além de agravar e disparar problemas como depressão e ansiedade. Os especialistas também chamam atenção para a ‘auto distorção digital’.

Segundo a neuropediatra Liubiana Arantes, quando estamos diante da tela o cérebro libera uma substância química chamada dopamina, a mesma liberada pelo uso de álcool e drogas.

“O cérebro nessa idade ele está amadurecendo, e esse amadurecimento vai depender tanto da genética da criança, quanto das experiências que ela vive no dia a dia. Se essas experiências estão restritas a um aparelho de telefone, esse cérebro não vai conseguir amadurecer de forma plena e saudável. As áreas do cérebro que não serão formadas no período que precisariam ser formadas, elas não vão formar posteriormente. Então, vai ter um prejuízo irreversível nesse amadurecimento cerebral”, explicou.

Outra preocupação entre pediatras e neurologistas é quanto ao conteúdo que crianças e adolescentes têm acesso. Nesse período da vida, eles ainda precisam desenvolver funções executivas do cérebro, como controle dos impulsos, autorregulação e pensamento futuro, explica o psiquiatra Nagib Demes, diretor-presidente da Sociedade Cearense de Psiquiatria (Socep).

“O uso abusivo pode afetar funções relacionadas a planejamento e raciocínio e aumentar o risco de impulsividade, levando a perda do controle sobre o uso de internet”, aponta. “É a idade da autopercepção e da autocrítica”, complementa. E como se auto perceber e desenvolver uma autocrítica saudável diante de tantas imagens construídas nas redes sociais?

O reflexo das redes sociais

Adolescentes têm enfrentado o reflexo da tela, que pode ser chamado de espelho, a duras penas. Seja pelo Tiktok, Ask,fm ou Instagram, as mais acessadas por eles, é possível maquiar a realidade e num momento em que está tão difícil viver o presente, nada melhor do que jogar um filtro sobre ele. Aplicativos de retoques em imagens, mudanças de fundo e cenários são algumas das ferramentas mais usadas.

A preocupação é tão grande com o tempo de uso que se esquece do conteúdo apresentado e a relação que se estabelece com ele. E para uma criança ou um adolescente essa relação pode causar danos irreparáveis, como o suicídio. Sim, o cyberbullying não é causa de suicídio, mas é um disparador.

Os comentários de uma postagem são capazes de desestruturar por completo um adolescente. Lembrem que eles buscam aprovação e uma vez não aprovados, a retaliação pode caminhar para uma depressão profunda, ansiedade e crises. O não saber lidar com todo este contexto é preocupante.

Soma-se ao conteúdo, as imagens inatingíveis e temos o que se chama de “auto distorção digital” que é uma tentativa irreal e constante de atender a padrões de beleza e é aqui que os filtros entram como recurso.

Eles projetam padrões inatingíveis e não à toa, em julho deste ano, a Noruega tornou lei a obrigatoriedade de comunicar o uso nas redes. No Brasil, a pesquisa Dove Pela Autoestima, realizada pela empresa em dezembro de 2020, revelou que 35% das 503 meninas entrevistadas já se sentiram “menos bonitas” ao verem fotos de influenciadores e celebridades nas redes sociais.

A pesquisa também mostra que 84% das jovens brasileiras com 13 anos já aplicaram filtro ou usaram aplicativo para mudar a imagem em fotos. Além disso, 78% tentam mudar ou ocultar pelo menos uma parte ou característica de seu corpo que não gostam antes de postar uma foto de si nas redes.

A consequência disso não poderia ser pior. Meninas – e eu incluo aqui, meninos e transgêneros – não conseguem se reconhecer em imagens reais através das redes e acabam por provocar uma auto distorção da própria imagem. O que para um adolescente que está em fase de construção da própria imagem o efeito é devastador.

Além disso, a pesquisa informa que a baixa autoestima corporal é mais propensa em meninas que editam suas fotos (50%) em comparação com aquelas que não o fazem (9%). E 72% das garotas entrevistadas responderam sentir imensa pressão para serem bonitas.

Compartilhe esta notícia:

Voltar Todas de Saúde

Canabidiol é novo aliado e chega aos consultórios como auxiliar contra a obesidade
Organização Mundial da Saúde vê risco elevado na variante ômicron; G7 faz reunião de emergência
Pode te interessar
Baixe o app da TV Pampa App Store Google Play