Terça-feira, 03 de fevereiro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 3 de fevereiro de 2026
A pergunta aparece cada vez mais nos consultórios, nas conversas de família e até nas redes sociais: afinal, o cigarro eletrônico faz menos mal do que o cigarro tradicional? Ela costuma vir acompanhada de um argumento aparentemente lógico. Não tem fumaça, não tem cheiro forte, não queima tabaco. Logo, deve ser menos prejudicial. Essa conclusão intuitiva é justamente onde mora o perigo.
A dúvida parte de uma comparação equivocada. Ela sugere que, entre dois produtos nocivos, um deles poderia ser aceitável. O organismo humano, porém, não negocia riscos dessa forma. Ele reage à agressão, independentemente da aparência moderna ou do discurso que acompanha o produto.
O cigarro convencional é um velho conhecido da medicina. Seus efeitos, estudados há décadas, não deixam margem para romantização. Está diretamente associado a infarto, derrame, diversos tipos de câncer, enfisema, bronquite crônica e perda progressiva da função pulmonar. Sua fumaça reúne milhares de substâncias tóxicas, muitas comprovadamente cancerígenas. O dano é cumulativo, previsível e frequentemente fatal. Não há surpresa, há estatística.
O cigarro eletrônico, por outro lado, chegou envolto em uma aura de inovação. Ele não se apresenta como um vício clássico, mas como um dispositivo. Um objeto tecnológico, colorido, com sabores adocicados e linguagem que remete mais a bem-estar do que a doença. Essa estética suaviza a percepção de risco e ajuda a explicar sua rápida disseminação, especialmente entre jovens.
Mas o que entra nos pulmões não é vapor de água. O vape produz um aerossol que contém nicotina, solventes aquecidos, metais e partículas microscópicas capazes de penetrar profundamente no tecido pulmonar e alcançar a corrente sanguínea. O corpo reconhece isso como agressão. As vias aéreas inflamam, o sistema de limpeza natural do pulmão perde eficiência e a resposta inflamatória se instala.
Em alguns casos, os efeitos foram tão intensos que surpreenderam a própria comunidade médica. Jovens saudáveis evoluíram com lesões pulmonares agudas graves, quadros que exigiram internação e suporte intensivo. Esses episódios deixaram claro que a ausência de combustão não equivale à ausência de dano. Apenas muda o tipo de agressão.
O coração também paga esse preço. Tanto o cigarro tradicional quanto o eletrônico aceleram os batimentos, elevam a pressão e inflamam os vasos, mantendo o organismo em estado constante de alerta. No início, isso passa despercebido. Com o tempo, cria o terreno para arritmias, infarto, insuficiência cardíaca e eventos que parecem surgir de repente, mas foram sendo construídos em silêncio.
Existe ainda um aspecto central que costuma ser negligenciado: a forma de uso. O cigarro tem começo, meio e fim. Ele exige uma pausa, um ritual, um intervalo. O vape não. Ele cabe no bolso, no carro, na mesa de trabalho, no quarto. Não deixa cheiro, não chama atenção e, por isso mesmo, é usado com mais frequência. A exposição deixa de ser episódica e passa a ser contínua. Pequenas doses, muitas vezes ao dia, por meses ou anos.
Entre adolescentes e adultos jovens, o cenário é ainda mais preocupante. Muitos nunca fumaram cigarro convencional e começaram diretamente pelo eletrônico. Nesse caso, não há redução de danos, apenas a introdução precoce da nicotina em um organismo saudável. O cérebro jovem é mais suscetível à dependência, e o hábito se instala antes que o usuário perceba.
Do ponto de vista científico, o cigarro convencional ainda causa mais mortes por ser usado há mais tempo e ter efeitos amplamente conhecidos. Isso, porém, não autoriza o uso do cigarro eletrônico. O vape é um problema mais recente, com consequências ainda em estudo. Menos conhecido não significa menos perigoso. A pergunta certa não é qual faz mais mal, mas se existe forma segura de inalar nicotina. A resposta da ciência, até agora, é não. (Com informações do jornal O Globo)