Domingo, 11 de janeiro de 2026

Vaticano negociou asilo de Nicolás Maduro na Rússia antes de sua captura pelos Estados Unidos

O cardeal italiano Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano, procurou representantes americanos na Santa Sé no final do ano passado para tentar mediar um asilo para o ditador Nicolás Maduro na Rússia. De acordo com jornal The Washington Post, a conversa ocorreu na véspera de Natal. Na ocasião, o religioso convocou Brian Burch, embaixador dos EUA na Santa Sé, para obter detalhes dos planos dos Estados Unidos na Venezuela.

Embora confirme negociações no período natalino, o Vaticano afirmou ao jornal que é “decepcionante que partes de uma conversa confidencial tenham sido divulgadas sem refletir com precisão o conteúdo”. O Departamento de Estado americano não comentou, assim como o porta-voz do Kremlin.

O Washington Post atribui a informação a documentos governamentais e entrevistas com quase 20 pessoas, que teriam pedido anonimato para discutir assuntos sensíveis.

Durante a conversa com Burch na Cidade do Vaticano, Parolin teria perguntado se os EUA realmente buscavam uma mudança de regime e insistido em uma saída pacífica —admitindo, porém, que Maduro precisava sair do poder.

Ele teria dito, então, que a Rússia estava pronta para receber o ditador e pedido paciência aos americanos para evitar instabilidade e derramamento de sangue no país da América Latina. O cardeal, que já atuou como embaixador do Vaticano em Caracas, tem um interesse especial na Venezuela.

Moeda de troca

O documento sobre a reunião, diz o Washington Post, afirma que Parolin citou o que descreveu como um rumor: a Venezuela havia se tornado uma “peça fundamental” nas negociações entre Moscou e Kiev e a Rússia “abriria mão da Venezuela se estivesse satisfeita com a situação na Ucrânia”.

O cardeal se referia à mudança na correlação de forças no mundo após o início da Guerra da Ucrânia, em fevereiro de 2022. Segundo analistas consultados pelo jornal, a Rússia, ocupada com o conflito no país vizinho, diminuiu seu apoio à Venezuela nos últimos anos, e a suposta oferta de asilo a Maduro teria sido uma forma garantir um acordo favorável sobre a Ucrânia.

Parolin teria dito ainda que Maduro parecia estar disposto a renunciar após as eleições de 2024, nas quais foi declarado vencedor sem apresentar as provas exigidas pela lei venezuelana. Na época, ele teria sido convencido a permanecer no poder por seu ministro do Interior, Diosdado Cabello, face da repressão do regime.

O cardeal disse estar “muito, muito, muito perplexo com a falta de clareza dos planos finais dos EUA na Venezuela”, segundo os documentos, e pediu que Washington desse um prazo para a saída de Maduro e garantias à sua família.

Dias depois, porém, os EUA bombardearam cidades venezuelanas, incluindo Caracas, e capturaram o líder e sua esposa, Cilia Flores. Ambos estão agora em Nova York para serem julgados pela justiça americana por acusações de narcoterrorismo.

De acordo com o jornal, Maduro pode ter recusado o asilo devido às restrições financeiras na Rússia. Acredita-se que o ditador tenha dinheiro em paraísos fiscais provenientes do comércio de ouro venezuelano, e ele não teria acesso a essas reservas na Rússia.

Segundo na hierarquia do papa, Parolin liderou nas casas de apostas para ser o novo líder da Igreja Católica após a morte de Francisco, no ano passado. Ele era descrito como forte candidato por sua experiência diplomática e por não se comprometer ser aberto a continuar o caminho de reformas iniciado pelo argentino.

Joesley Batista

A reportagem do Washington Post também fala da tentativa do empresário e dono da JBS, Joesley Batista, de persuadir Maduro a deixar o poder. Ele teria sugerido exílio ao ditador na Turquia.

Batista se reuniu com Maduro no final de novembro com uma lista de quatro pedidos, dentro os quais, a sua saída da Venezuela, acesso americano a petróleo e minerais críticos e o rompimento do país com Cuba.

Segundo o jornal, duas pessoas familiarizadas com o encontro disseram que naquele dia Maduro recebeu uma oferta para ir para o exílio na Turquia ou para outro país disposto a recebê-lo. Procurada pelo Washington Post, a Embaixada da Turquia não se manifestou.

Batista informou ao governo Trump as conclusões da sua reunião, segundo informou um alto funcionário da Casa Branca ao jornal. Mas, segundo esse mesmo funcionário, ele “não estava trabalhando a pedido dos Estados Unidos”. A informação sobre o encontro de Batista com o Maduro foi noticiada inicialmente pela Bloomberg em dezembro.

O brasileiro tem boas relações com Trump. A JBS é proprietária da Pilgrim’s Pride, produtora de frango com sede no Colorado, que doou US$ 5 milhões (R$ 26,5 milhões) ao comitê de posse de Trump, a maior doação individual. As informações são da Folha de S. Paulo.

Compartilhe esta notícia:

Voltar Todas de em foco

Sindicância: Conselho Federal de Medicina nega tentar intervir em pena de prisão de Bolsonaro
Lula acumula 15 trocas ministeriais e mais saídas são esperadas em 2026
Pode te interessar
Baixe o app da TV Pampa App Store Google Play