Terça-feira, 25 de junho de 2024

Vítimas de traumas e doenças graves têm a idade biológica aumentada

Acreditava-se que a idade biológica tinha um sentido único: o do envelhecimento ao longo do tempo. Cientistas, porém, têm relatado evidências de um fenômeno diferente: seres humanos podem ser biologicamente mais velhos ou mais jovens do que a idade cronológica em alguns momentos. Um estudo publicado na revista Cell Metabolism investiga até que ponto a idade biológica sofre mudanças reversíveis ao longo da vida e quais eventos desencadeiam essas alterações. Os resultados evidenciam que situações estressantes, como doenças, mudanças no estilo de vida, traumas e até gestações, podem causar esse efeito.

O grupo descobriu que a idade biológica pode aumentar em períodos de tempo relativamente curtos em resposta ao estresse, mas que esse “envelhecimento” é transitório e tende a retornar ao patamar esperado. “Essa descoberta de idade fluida, flutuante e maleável desafia a concepção de uma trajetória ascendente unidirecional da idade biológica ao longo da vida”, enfatiza, em nota, o coautor do estudo James White, da Duke University School of Medicine, nos Estados Unidos.

Segundo White, evidências crescentes em estudos científicos sugerem que estilo de vida, doenças e exposição ambiental, como a poluentes, podem acelerar o envelhecimento biológico. “No entanto, o conceito de reversão da idade biológica era, até agora, inexplorado”, afirma. A fim de preencher essa lacuna, os pesquisadores aproveitaram características do DNA para medir o envelhecimento do organismo em resposta a vários estímulos estressantes. Os testes foram feitos com camundongos e humanos.

Beatriz Lassance, cirurgiã plástica e membro do American College of LifeStyle Medicine e do Colégio Brasileiro de Medicina do Estilo de Vida, explica que existem várias teorias para explicar a contabilização de idade biológica. “Essa avaliação, por exemplo, pode ser clínica, que leva em consideração atividade física, porcentagem de massa magra, cognição, hábito e estilo de vida”, diz. “Mas existem também marcadores biológicos. Nosso DNA sofre alterações desde o momento em que nascemos, e isso é considerado um relógio biológico. Essas alterações determinam a eficiência com que produzimos as proteínas que fazem nosso organismo funcionar.”

Chamadas de metilação, essas pequenas mudanças ocorrem onde moléculas reagem com o material genético, alterando seu funcionamento. “As alterações podem ser medidas no DNA com exames de sangue ou saliva que determinam a quantidade de metilação de nosso DNA”, explica Lassance. A equipe americana avaliou justamente esse fenômeno, focando nos chamados relógios epigenéticos para observar os níveis de metilação do DNA em humanos e camundongos.

“Os relógios epigenéticos usam algoritmos para prever a idade biológica com base na extensão e na localização da metilação ligada ao DNA de uma pessoa”, explica White. “O envelhecimento cronológico altera o padrão de metilação no DNA, e os relógios usam esse padrão natural para prever a idade biológica. Nesse estudo, usamos os relógios para mostrar o rápido aumento e a reversão do envelhecimento biológico em resposta a um estressor e subsequente recuperação.”

Os resultados revelaram que a idade biológica pode aumentar temporariamente em resposta ao estresse, voltando à normalidade uma vez que o fator estressor é retirado. White e colegas avaliaram que as mudanças transitórias ocorreram em situações distintas. Por exemplo, as mudanças reversíveis na idade biológica que acontecem durante a gravidez. Para isso, eles coletaram sangue de 54 mulheres durante um trimestre de gestação e observaram que a idade biológica aumentou até o momento do parto. Logo após o nascimento da criança, muito desse estresse e de condições relacionadas foi naturalmente revertido, ocasionando na volta da idade biológica.

Coronavírus

Da mesma forma, a equipe levantou a hipótese de que doenças infecciosas graves poderiam causar alterações reversíveis nos marcadores de idade biológica, fenômeno observado em pacientes de covid-19, principalmente em mulheres internadas. “Essa noção sugere que a capacidade de se recuperar do estresse pode ser um importante determinante do envelhecimento e longevidade bem-sucedidos”, diz Vadim Gladyshev, coautor do estudo e pesquisador da Escola de Medicina de Harvard.

Gisele Hedler, especialista em desenvolvimento humano e psicologia positiva, enumera outros cuidados que ajudam nesse processo de “rejuvenescimento”. Assim como o estresse, alimentação, sono, sedentarismo, álcool, tabagismo e até hiperglicemia, entre outros fatores, influenciam no envelhecimento do organismo. “A idade biológica refere-se a quantos anos parece que a pessoa tem. Então, ela pode ter 50 anos, mas aparentar 40 porque se cuida melhor”, ilustra.

Segundo Lassance, a genética é responsável por 30% do envelhecimento, enquanto fatores externos, pelo restante. No caso das condições avaliadas pelos pesquisadores americanos, elas geram estresse oxidativo que atrapalharam o funcionamento do DNA e sua linha de produção de proteínas. Porém, como eram estímulos temporários, houve uma tendência de o organismo se recuperar. “Essa fase de recuperação é primordial. E se não for bem estabelecida, pode, sim, acarretar num envelhecimento não reversível”, alerta a médica. A equipe de cientistas planeja justamente entender como o fenômeno observado pode contribuir para acelerar o envelhecimento humano.

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