Quarta-feira, 04 de fevereiro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 3 de fevereiro de 2026
Um experimento realizado por cientistas nos EUA indica que aplicativos de celular com ruído de chiado para dormir podem prejudicar o sono em vez de ajudá-lo.
O estudo, feito por um grupo da Universidade da Pensilvânia (EUA), monitorou durante sete dias o sono de 25 pessoas em diferentes condições, colocando-as para dormir sob diferentes condições de barulho.
Os voluntários, recrutados na cidade da Filadélfia, foram submetidas a ruído gravado de aviões (como se morassem em de prédios perto de aeroportos), sendo que a alguns deles foi oferecido algum recurso para amenizar o problema.
Para efeito de comparação, uma parte do grupo podia usar os apps de “ruído rosa” (chiado de frequências médio-agudas) para isolar o barulho intermitente, enquanto outra parte recebeu protetores auriculares comuns.
Os cientistas mediram então a qualidade do sono de todos por exame de polissonografia, que registra atividade cerebral, movimentos oculares, atividade muscular e outros sinais fisiológicos. Além disso, realizaram testes de capacidade de atenção, função cardiovascular e audição durante a manhã.
Ao final, o experimento mostrou que o grupo usando tampões de ouvidoteve sono de mais qualidade. Em alguns aspectos, os usuários de ruído rosa tiveram o sono pior até mesmo do que os voluntários obrigados a suportar o ambiente com ruído de aeroporto sem os protetores auriculares.
Apesar de o som de chiado melhorar a chamada fase N3, o “sono pesado”, ele acabou fragmentando mais o sono REM (movimento rápido dos olhos) associado aos sonhos, que é importante para restaurar várias funções cerebrais.
“Adicionar ruído rosa ao ruído ambiente foi em geral uma estratégia de mitigação sem sucesso, e piorou a estrutura do sono”, escreveram os autores do trabalho, liderados pelo psiquiatra Mathias Basner.
Além de diminuir o tempo de sono REM contínuo, o uso de ruído rosa aumentou em média em 15 minutos o tempo que os voluntários ficavam prostrados em suas camas sem conseguir dormir.
Os resultados do experimentos foram descritos em artigo publicado hoje no periódico “Sleep”, especializado em medicina do sono. Basner reconheceu que seu relato é, em parte, incompatível com parte da literatura científica recente sobre o tema.
Algumas revisões de pesquisas apontam para um possível benefício ao sono pelo uso de ruído rosa ou outros tipos dos chamados ruídos de frequência de banda-larga. Alguns apps oferecem também “ruído branco” (frequências médias) ou “marrom” (ou pouco mais grave).
Segundo o cientista da Pensilvânia, o que o motivou a fazer a pesquisa foi justamente uma inconsistência realizada em estudos anteriores, que foram projetados com condições muito diferentes uns dos outros. Além disso, pesquisas sobre o tema ganham relevância à medida que os apps de chiado se tornam mais populares.
“A falta de evidência para a eficácia de ruídos de banda-larga e a falta de estudos sobre potenciais efeitos de longo prazo na saúde contrastam com seu uso disseminado”, afirmou.
O grupo de pesquisa responsável pelo estudo identificou que os cinco apps de ruído branco mais baixados na Apple Store já têm de 1 milhão de comentários, e os cinco vídeos de white noise no topo das buscas pelo termo no YouTube já tem mais de 700 milhões de visualizações.
Recomendações
O uso de chiado para dormir, entretanto, não tem sido objeto de diretrizes de sociedades médicas em tratamentos contra insônia e outros problemas do sono. Basner defende que o assunto entre com mais força na pauta de médicos e agências reguladoras no setor da saúde. Um dado particularmente preocupante é o de que muitos pais usam ruído rosa para tentar embalar bebês.
“Dado o uso disseminado de sons de banda-larga na população, e considerando que aparelhos como ar-condicionado e ventiladores também produzem esses sons, a redução observada no sono REM é preocupante, considerando as importantes contribuições do sono REM para a formação da memória, a plasticidade cerebral e a regulação emocional”, diz o cientista. “Com base nesses achados, é provável que seja justificado desencorajar o uso popular de sons de banda larga em recém-nascidos e crianças pequenas, visto que o sono REM desempenha um papel crucial no neurodesenvolvimento.”
A solução “low-tech” dos tampões de ouvido, diz, parece ser por enquanto a melhor opção para atenuar o efeito de barulhos externos intermitentes que atrapalham o sono.
No experimento na Pensilvânia, os protetores auriculares foram eficazes em quase todas as rodadas do teste. Com ruídos acima de 65 decibéis no quarto, porém, eles começam a perder a efetividade.
Apesar do dado preocupante, Basner reconhece também que o uso de chiado precisa ser estudado em outras configurações experimentais, para que se entenda melhor se ele pode ser benéfico em algumas delas. (Com informações do jornal O Globo)