Quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Durante os últimos quatro anos, Janja acumulou polêmicas, poderes, aliados e detratores dentro e fora do governo

A primeira-dama Rosângela Lula da Silva, a Janja, encerra o terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) como uma das figuras mais influentes e controversas do entorno do governo. Ao longo dos últimos quatro anos, participou de agendas oficiais, aproximou-se de movimentos sociais, defendeu políticas públicas e atuou na comunicação presidencial. Ao mesmo tempo, sua exposição e influência sobre decisões políticas provocaram críticas de aliados e adversários.

Diferentemente de primeiras-damas que adotaram uma atuação predominantemente protocolar, Janja construiu uma presença pública própria. Militante do PT desde os anos 1980, ela se envolveu em temas como combate à violência contra as mulheres, direitos sociais e participação feminina na política. Também participou de viagens internacionais e de encontros com autoridades estrangeiras, além de ter assumido protagonismo nas redes sociais e em eventos ligados ao governo.

Sua atuação, porém, frequentemente abriu discussões sobre os limites do papel institucional de uma primeira-dama. Como não ocupa cargo eletivo nem exerce formalmente uma função ministerial, sua participação em decisões e articulações governamentais tornou-se alvo de questionamentos sobre transparência, responsabilidade e influência política.

Um dos episódios de maior repercussão ocorreu em novembro de 2024, durante um evento relacionado ao G20, no Rio de Janeiro. Ao comentar a atuação do empresário Elon Musk, proprietário da plataforma X, Janja usou uma expressão ofensiva em inglês, em um momento que repercutiu internacionalmente. A declaração recebeu aplausos de parte do público presente, mas também críticas de opositores e de integrantes do meio político.

Em maio de 2025, outra situação provocou desconforto. Durante uma agenda na China, relatos sobre uma intervenção de Janja em conversa com o presidente Xi Jinping a respeito do TikTok geraram debate sobre o protocolo diplomático e a conveniência de tratar de temas sensíveis em encontros oficiais. O episódio ampliou as discussões sobre a fronteira entre manifestações pessoais e representação institucional.

Janja também atuou na articulação de pautas e na interlocução com integrantes do governo. Aliados atribuem a ela influência na defesa de políticas de combate ao feminicídio e em discussões sobre nomes para cargos ministeriais. Sua participação no debate sobre a permanência de Ana Moser no Ministério do Esporte e em outras decisões alimentou a percepção de que ela tinha acesso direto ao presidente e espaço nas conversas do núcleo político.

A influência também se refletiu na comunicação da Presidência. Janja buscou dialogar com públicos que o governo considera estratégicos, especialmente mulheres e usuários de redes sociais. Durante a campanha eleitoral de 2026, participou de atos e atividades de mobilização. Após o resultado do primeiro turno, no entanto, aliados passaram a questionar reservadamente o grau de exposição da primeira-dama e o efeito político de sua participação na campanha.

As críticas não se restringem à oposição. Integrantes do campo governista já manifestaram desconforto com o espaço ocupado por Janja, embora o assunto seja tratado com cautela no entorno presidencial. Entre as ressalvas estão a dificuldade de separar a atuação pessoal da institucional e o risco de que suas manifestações sejam interpretadas como posições oficiais do governo.

Por outro lado, especialistas também apontam que parte das críticas dirigidas à primeira-dama é marcada por estereótipos de gênero e resistência à presença de mulheres em espaços de poder. A discussão envolve, portanto, tanto a legitimidade da participação pública de Janja quanto a necessidade de clareza sobre suas atribuições.

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