Sábado, 09 de maio de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 8 de maio de 2026

Segurança pública e desenvolvimento econômico raramente ocuparam o mesmo palco de forma tão explícita quanto nesta sexta-feira, durante a Fenasoja. A realização do 1º Seminário de Segurança Pública e Desenvolvimento, promovido pelo Comando Regional de Polícia Militar Fronteira Noroeste, marcou mais do que uma agenda institucional da Brigada Militar: consolidou um novo entendimento sobre o papel da segurança pública no Rio Grande do Sul — não apenas como instrumento de combate ao crime, mas como elemento essencial para garantir competitividade, estabilidade e crescimento regional.
Com participação do comando-geral da corporação, autoridades, representantes do setor produtivo, lideranças regionais e especialistas, o encontro reuniu diferentes setores em torno de um debate que vem ganhando força no país: não há desenvolvimento sustentável sem ambiente seguro.
E o local escolhido para essa discussão não foi casual.
Ao levar o seminário para dentro de uma das maiores feiras multissetoriais do Brasil, a Brigada Militar reforçou simbolicamente uma mensagem cada vez mais presente nas economias regionais: proteger significa também preservar cadeias produtivas, garantir confiança institucional e assegurar condições para que investimento, empreendedorismo e geração de renda prosperem.
Na região Noroeste, essa lógica ganha peso ainda maior.
A área concentra forte presença do agronegócio, cooperativismo consolidado, indústria regionalizada e intensa circulação de mercadorias. Trata-se de uma das regiões economicamente mais dinâmicas do interior gaúcho — e, justamente por isso, mais exposta aos impactos de crimes econômicos, contrabando, descaminho, fraudes tributárias e movimentações criminosas ligadas às rotas de fronteira.
Esse contexto orientou o primeiro painel do seminário: “Proteção da Ordem Econômica: desafios tributários e o papel da segurança pública na proteção das cadeias produtivas do agronegócio”.
O debate trouxe ao centro uma preocupação cada vez mais estratégica: a proteção econômica. Em estados com forte base agroindustrial como o Rio Grande do Sul, ameaças às cadeias produtivas impactam diretamente arrecadação, empregos, competitividade e crescimento.
Na sequência, o painel “Inteligência no combate aos crimes transfronteiriços” aprofundou um dos maiores desafios contemporâneos da segurança pública.
A fronteira mudou.
Hoje, ela é menos geográfica e mais operacional.
O enfrentamento ao crime exige integração entre forças, análise de dados, tecnologia e inteligência aplicada. Não por acaso, a própria estrutura de segurança da feira adotou sistemas de videomonitoramento com apoio de inteligência artificial e reconhecimento facial, refletindo uma tendência crescente nos grandes eventos públicos.
Ainda no turno da manhã, a mesa-redonda “Integração Polícia-Comunidade-Empresa” abordou um conceito cada vez mais valorizado internacionalmente: segurança compartilhada.
A ideia é simples e poderosa — resultados mais consistentes dependem de cooperação institucional entre forças públicas, iniciativa privada e sociedade civil.
Mas o seminário não ficou restrito à dimensão econômica.
A programação da tarde colocou em evidência uma das pautas mais urgentes da agenda social brasileira: a violência contra a mulher.
O painel “Patrulha Maria da Penha: fortalecendo a rede de proteção no interior do Estado” destacou o papel da Brigada Militar no acolhimento e na proteção de mulheres em situação de vulnerabilidade, especialmente em municípios do interior, onde o acesso à rede de apoio costuma ser mais limitado.
Na sequência, o debate “Silêncio no campo e na cidade: superando as barreiras da violência doméstica” ampliou a discussão ao abordar os obstáculos culturais, sociais e institucionais que ainda dificultam denúncias e interrompem ciclos de violência.
O último grande debate do dia, a mesa “Educação e Prevenção: o impacto social da violência na economia e no desenvolvimento”, conectou segurança pública à formação social.
A violência tem custo — econômico, social e humano.
Ela reduz produtividade, eleva gastos públicos, afasta investimentos e compromete o desenvolvimento humano.
Por isso, tratar segurança como vetor de crescimento significa reconhecer que não existe expansão econômica duradoura sem estabilidade institucional.
O encerramento, com o tema “A Polícia Ostensiva e os desafios da Brigada Militar”, funcionou como síntese do dia: a corporação amplia seu papel histórico.
Tradicionalmente associada ao policiamento ostensivo, a Brigada Militar reforça agora seu protagonismo como agente de prevenção, inteligência e construção de políticas públicas voltadas ao futuro.
É um movimento silencioso, mas estratégico.
Leva a segurança para o centro do debate econômico.
E mostra que, em regiões que produzem e crescem, proteger deixou de ser apenas uma missão policial — tornou-se condição para o futuro. (por Gisele Flores – gisele@pampa.com.br