Segunda-feira, 02 de novembro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 2 de novembro de 2026
Há dias em que a vida escreve uma crônica sem pedir licença ao autor.
Meu primeiro livro, “As Melhores Crônicas do Sul”, acabara de sair da gráfica. Para minha surpresa, cinquenta exemplares vendidos no primeiro dia para amigos, entrevistas pela frente e aquele orgulho quase infantil de segurar nas mãos um sonho transformado em papel.
Mas a vida, essa escritora imprevisível, resolveu trocar o roteiro. Minha mãe, que já enfrentara uma pneumonia, voltou a sentir falta de ar uma semana depois de nossa primeira passagem pela UPA. E conheço bem aquela alemoa teimosa: pela segunda vez, só concordou em procurar socorro quando o corpo já gritava mais alto que a teimosia, e a respiração estava difícil.
Naquela madrugada, voltamos à UPA de Cachoeirinha. Entre oxigênio, nebulização e preocupação, descobri que até uma noite de aflição pode reservar personagens inesquecíveis para uma crônica.
Fui até a frente da UPA enquanto minha mãe era atendida. O segurança me reconheceu e pediu um cigarro. Apresentei minha teoria com humor:
— No primeiro, tu estás filando. No segundo, também. Mas, a partir do terceiro, já és um “fila da puta”, meu amigo!
Rimos. Mostrei meu livro, li algumas crônicas e conquistei um leitor. O infeliz acabou confirmando a teoria: fumou quase metade da carteira comigo e, de quebra, tornou-se uma agradável companhia e personagem literário.
Em determinado momento, procurei uma enfermeira. Queria falar discretamente, sem assustar minha mãe. Antes de ouvir o pedido, ela presumiu que eu pretendia abandoná-la para sair da unidade e começou a me advertir em voz alta.
— Querida, quem sabe tu me escutas antes de tirar conclusões?
Eu só queria saber se a equipe aceitava um café. Afinal, não me custaria nada providenciar algumas térmicas.
A expressão mudou. Mais tarde, ela me encontrou no corredor e perguntou, sorrindo, se eu havia conseguido.
Já no final da madrugada, uma médica apressada também teve seus instantes de impaciência com minha mãe fragilizada, que tem dificuldade para escutar. Expliquei a situação calmamente, sem exaltar os ânimos.
Para completar, na saída, uma mulher respondeu com grosseria quando pedi ajuda para devolver a cadeira de rodas, enquanto acomodava minha mãe no carro de aplicativo.
— Não posso fazer força! —, respondeu, de forma áspera.
Pensei que uma cadeira de rodas vazia não exigiria tanto esforço. Mas, talvez, ela tivesse suas próprias dores. Afinal, não conhecemos a história inteira de ninguém numa simples aproximação.
Naquela noite, compreendi que a energia que oferecemos não garante que receberemos a mesma dos outros. Mas, certamente, pode impedir que um desencontro vire guerra.
A enfermeira terminou sorrindo. O segurança ganhou uma história. E deixei um exemplar autografado para os profissionais que passam as madrugadas cuidando da vida dos outros, muitas vezes abdicando de seus próprios problemas.
Desde então, os dias se dividiram entre remédios, refeições, tosses, noites mal dormidas e o cuidado com minha mãe.
Hoje, felizmente, ela está estável. Ainda tosse, sente cansaço, mas não tem mais febre e consegue dormir e respirar durante a noite. Continua teimosa, evidentemente. Certas características nem a medicina moderna consegue tratar!
Enquanto ela recuperava o fôlego, meu livro começava a encontrar seus leitores. Lasier Martins, que escreveu o prefácio, abriu espaço para uma entrevista de enorme alcance. Depois vieram Sérgio Zambiasi e Amanda Block, na Rádio Caiçara, levando a obra a outro grande público. Juntas, essas oportunidades alcançaram audiências potenciais de centenas de milhares de pessoas. Vieram também manifestações generosas de leitores, inclusive personalidades de destaque.
Penso na ironia delicada de tudo isso. Quando meu livro nasceu, minha maior preocupação não era quantos exemplares venderia, mas se minha mãe conseguiria respirar.
Se me perguntarem qual foi a primeira grande conquista deste livro, não falarei das entrevistas nem dos autógrafos. Falarei do que estou aprendendo: que sucesso não é apenas ser reconhecido…
É ter alguém para abraçar quando voltamos para casa… E isso, meus amigos, não há aplauso que supere.
Na próxima quarta-feira, 4/11, às 19h, lanço “As Melhores Crônicas do Sul” no Plenarinho da Câmara de Vereadores de Cachoeirinha, com a presença de autoridades, empresários, artistas e amigos. Na ocasião, há também a expectativa de receber uma Challenge Coin, honraria simbólica da Brigada Militar. Você é meu convidado!
No dia 15/11, das 14h às 16h, estarei na Praça de Autógrafos da 72ª Feira do Livro de Porto Alegre. Será uma alegria encontrar meus leitores e dedicar pessoalmente um exemplar.
* Fabio L. Borges, jornalista, cronista e poeta gaúcho