Sábado, 20 de julho de 2024

A luta da Ucrânia para recrutar novos soldados

Quando Pavlo Zhilin e a sua patrulha andam pelas ruas de Cherkasy, os homens muitas vezes mudam de caminho para desviar deles.

Pavlo é oficial de recrutamento que procura soldados para o Exército da Ucrânia. Mas quase dois anos após a invasão da Rússia, já não há um grande fluxo de voluntários na linha da frente.

A maioria dos que queriam lutar estão mortos, feridos ou ainda na frente de batalha, à espera de serem substituídos por novos soldados.

Na cidade ucraniana de Cherkasy, como em outros lugares, encontrar voluntários já não é tão fácil agora como era inicialmente, quando houve uma explosão de entusiasmo e energia.

Hoje em dia, o serviço de segurança em Cherkasy precisa constantemente buscar e fechar canais e grupos nas redes sociais locais que avisam moradores quando as equipes de recrutamento estão na cidade.

“Não entendo. As pessoas andam por aí como se a guerra estivesse acontecendo em algum lugar distante. Mas esta é uma invasão em grande escala e é como se as pessoas não se importassem mais”, diz Pavlo.

Ele está frustrado com o que considera ser a indiferença das pessoas. “Nós precisamos que todos se unam como no primeiro dia. Todos estavam unidos no começo, como irmãos.”

Sacrifício pelo país

Aos 24 anos, Pavlo sente que sacrificou muito pelo seu país.

Ele cresceu sonhando em ser soldado — seus olhos brilham quando ele se lembra disso — e ele estava servindo no Exército em fevereiro de 2022, quando as tropas russas cruzaram a fronteira.

Ele lutou perto de Kiev, depois em Soledar, no leste de Donbass, onde a batalha foi brutal. No primeiro verão da guerra, ele foi transferido para Bakhmut.

“Ficamos sob fogo pesado. Um projétil caiu perto de mim. Perdi todo o cotovelo. Não sobrou nada”, diz ele.

Ele conseguiu rastejar para baixo de um arbusto e começou a rezar. Ele admite que chegar ao hospital foi um grande alívio: não apenas porque conseguiu sobreviver, mas porque finalmente saiu da linha de frente. “Foi muito difícil lá. Não consigo nem colocar em palavras”. De repente, ele fica cabisbaixo.

Os ferimentos de Pavlo foram graves. Seu braço direito foi amputado abaixo do ombro, ele ainda sente dores onde ficava o membro e tem estilhaços na perna. Sua prótese básica lhe dá movimentos limitados. Mas ele queria continuar servindo seu país. Por isso, se tornou oficial de recrutamento.

Depois de tudo o que ele passou, eu me pergunto se ele realmente entende por que outros homens fogem do recrutamento.

Quando pergunto a Pavlo se ele perdeu amigos na luta, ele admite que “quase não sobrou ninguém” de sua unidade. “Os únicos que sobraram estão [feridos] como eu. Os outros estão mortos.”

A história de Vladislav

Nos limites de Cherkasy, há um cemitério com uma longa fila de sepulturas recentes. Ali estão enterrados homens de todas as idades da cidade, que morreram lutando desde que o presidente russo, Vladimir Putin, deu a ordem de invasão.

A Ucrânia honra os mortos como heróis, mas cabe às suas famílias manter o luto.

Cada túmulo é decorado com bandeiras nacionais e repleto de guirlandas e flores. Há imagens fixadas em cruzes ou gravadas em lápides de mármore de soldados em uniforme militar.

Inna ainda não suporta colocar a foto do filho no túmulo. A imagem que ela usou no funeral ainda está em sua casa. Ela não está pronta para tirar a foto de casa.

Vladislav Bykanov foi morto em junho passado na explosão de uma mina perto de Bakhmut. Ele estava prestes a completar 23 anos e já era subcomandante.

Faz algum tempo que ela não visita o cemitério. A fileira de túmulos de soldados aumentou.

“Você acha que meu filho não teve medo? Eu também tive medo quando ele foi embora. Todo mundo tem medo de morrer”, responde ela.

“Mas talvez ser escravizado pela Rússia seja mais assustador? Agora vemos a morte. É muito difícil. Muito difícil. Mas não há caminho de volta. Não podemos desistir.”

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