Segunda-feira, 15 de junho de 2026

A perfeição do imperfeito

Existe uma fase da vida em que acreditamos que a felicidade mora na conquista. A casa. O carro. A estabilidade. A independência financeira…

Quando somos jovens, temos pressa. Corremos atrás de sonhos, aventuras, experiências e objetivos que parecem urgentes demais para esperar.

E, talvez, seja justamente por isso que nem sempre percebamos o valor das coisas enquanto elas ainda estão presentes.

Recentemente vi um vídeo que me chamou a atenção. Uma senhora caminhava por um apartamento impecável. Os móveis brilhavam. A decoração era elegante. Os cômodos pareciam ter saído de uma revista de arquitetura. Não havia nada fora do lugar.

Tudo estava exatamente onde deveria estar. Então, ela disse uma frase simples: “Está faltando vida”.

E aquela frase mudou completamente a cena. Porque realmente não faltava limpeza. Não faltava conforto. Não faltava beleza. Não faltava espaço. Faltava gente…

Ela contou que sentia falta da toalha molhada esquecida no banheiro. Do copo abandonado sobre a mesa. Dos brinquedos espalhados pela sala. Da porta batendo. Da televisão ligada no volume alto em outro cômodo. Da voz chamando seu nome sem pedir licença. Da bagunça em geral…

Durante anos, aquelas coisas pareciam pequenos incômodos que atravessavam os dias. Agora eram saudades…

Os filhos cresceram. Seguiram seus caminhos. O marido partiu. E a casa finalmente ficou perfeita. Perfeita demais… Silenciosa demais… Vazia demais…

Talvez a grande ironia da existência humana seja esta: passamos boa parte da vida tentando eliminar os ruídos sem perceber que muitos deles são justamente os sinais de que estamos vivos.

O choro de uma criança. A conversa atravessando a parede. A louça suja esquecida na pia. Os tênis espalhados e os brinquedos fora do lugar. A toalha largada sobre a cama. Até mesmo aquela bagunça que o cachorro ou o gato deixa pela casa.

Um sapato mastigado… Um vaso quebrado. Ou uma lembrancinha indesejada sobre a cama que nos faz resmungar enquanto limpamos tudo.

Na hora, parecem problemas… Mas um dia podem se transformar em lembranças. Porque a ausência tem uma estranha capacidade de valorizar aquilo que a rotina tornava invisível.

Com o passar dos anos, descobrimos que a verdadeira riqueza nem sempre está na perfeição. Ela mora nos sinais da presença. Nas marcas, muitas vezes indesejadas, deixadas por quem amamos. Nos pequenos vestígios da vida acontecendo diante dos nossos olhos.

O curioso é que passamos anos tentando organizar tudo. Arrumar tudo. Controlar tudo. Até que um dia percebemos que a perfeição absoluta pode ter um som muito parecido com o vazio.

Uma casa sem bagunça… Sem vozes… Sem passos… Sem interrupções… Sem marcas… Sem vida…

Talvez algumas das coisas que passamos anos tentando corrigir fossem justamente as que davam sentido à casa. Porque uma casa impecável pode ser admirável. Mas são as imperfeições que a tornam humana.

E, talvez, exista uma beleza que só pode ser encontrada no imperfeito. Afinal, aquilo que mais aquece uma casa raramente está nos móveis, na decoração ou na organização.

Está nas pessoas… Nos animais… Nas risadas… Nos ruídos… Nas pequenas desordens que deixam marcas pelos cômodos.

A perfeição, às vezes, é apenas um outro nome para a ausência. Já o imperfeito… É onde a vida costuma morar com toda sua intensidade.

* Fabio L. Borges, jornalista, cronista e poeta gaúcho

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