Terça-feira, 16 de junho de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 16 de junho de 2026
Por que estamos trocando humanos cheios de defeitos por telas que dizem exatamente o que queremos ouvir? Esqueça o celular por dois minutos. Sim, eu sei que é difícil.
Mas preciso que você olhe para o lado. Se você estiver passeando no parque ou tomando um café em uma rua charmosa, olhe para as pessoas ao seu redor.
Nós mudamos. Aliás, a forma como buscamos intimidade mudou tanto que, como sexóloga, preciso lhe fazer uma pergunta direta: quando foi a última vez que você se apaixonou por alguém que comete o erro gravíssimo de discordar de você?
Antigamente, a queixa que eu mais ouvia no consultório era o clássico “meu parceiro não me escuta”. Hoje, a tecnologia resolveu isso. Criamos um admirável mundo novo onde o seu parceiro não apenas escuta, mas responde em três segundos, nunca está cansado, não tem dor de cabeça, decora o nome do seu cachorro e valida cada loucura que você pensa.
O par perfeito existe, mas ele é feito de linhas de código. Bem-vindo à era da digissexualidade.
O doce sabor da ilusão sem conflitos
Vamos ser honestos: quem nunca teve vontade de mandar o parceiro real para as configurações de fábrica depois de uma discussão boba? Pois é, o mercado da carência digital percebeu isso e criou aplicativos específicos para este serviço.
A proposta é quase irresistível: um namorado ou namorada de Inteligência Artificial customizado exatamente do jeito que você quer. Você escolhe o cabelo, o estilo e até o tom de voz. Na tela, tudo é lindo. O robô não te julga se você passar o domingo jogado no sofá comendo pizza fria; pelo contrário, ele vai dizer que você é a pessoa mais autêntica do universo.
É a sedução da “intimidade sem esforço”. Você ganha todo o bônus de se sentir amado, desejado e compreendido, mas com zero ônus de ter que ouvir um “hoje não” ou aguentar aquela cara de poucos amigos depois de um dia exaustivo de trabalho.
É um amor embalado a vácuo, sob medida para o nosso cansaço. Compreendo perfeitamente o apelo. O “Chico virtual” nunca vai deixar a toalha molhada em cima da cama. A “Serena” de IA” jamais vai criticar o seu gosto musical ou reclamar que você passa tempo demais no futebol com os amigos.
As IAs oferecem o que os cientistas chamam de “validação incondicional. Traduzindo o psicologuês: elas entregam uma simulação perfeita de empatia. O algoritmo aprende o que massageia o seu ego e repete em looping. É o paraíso, não é?
Não, não é. É uma armadilha clínica. A Atrofia do “Músculo da Frustração”. O grande problema do amor artificial não está no que ele te oferece, mas no que nos faz desaprender. O sexo e o amor reais são, por definição, atividades de alto risco. Envolvem cheiro, fluidos, vulnerabilidade, a possibilidade de ouvir um “não” e, principalmente, a necessidade de negociar.
Quando alguém passa meses namorando um chatbot, ela desenvolve uma espécie de hiperindependência afetiva. Acostuma-se com um espelho algorítmico que diz “amém” para tudo.
Quando esse indivíduo tenta sair para um encontro real e descobre que a pessoa do outro lado da mesa boceja, tem opiniões políticas próprias, esquece a carteira ou que horror! Tem mau hálito de manhã, o choque é insuportável.
A pessoa desiste. Volta correndo para o quarto, abre o aplicativo e pede colo para a máquina. Os especialistas em comportamento alertam que esse tipo de relação vicia rápido, porque o nosso cérebro começa a receber descargas de dopamina fáceis demais. Estamos vivenciando o que a psicologia batizou de “intimidade sem reciprocidade”.
Você recebe a ilusão do afeto sem precisar ceder em absolutamente nada. Isso não é um relacionamento; é um monólogo de luxo pago por assinatura.
Use a tela, mas não esqueça o toque
Não me entenda mal. Como sexóloga, não sou uma ludista que quer queimar os computadores. A tecnologia pode ser maravilhosa para explorar fantasias, romper a barreira da timidez extrema e servir como um laboratório seguro para entender os próprios desejos.
O perigo começa quando o simulador substitui a pista de corrida. Se você repara que está preferindo o cafuné virtual à incerteza de um olhar de verdade, ligue o sinal de alerta.
O amor dá trabalho. O sexo real exige coragem para rir de um imprevisto na cama, paciência para enfrentar os BOs da vida e maturidade para entender que a beleza humana mora justamente na nossa imperfeição.
Sua IA pode até dizer que te ama com o poema mais lindo do mundo, mas ela faz isso porque foi programada por engenheiros do Vale do Silício para garantir que você não cancele a assinatura no mês que vem.
O ser humano, por outro lado, quando decide te amar com todos os seus defeitos, faz isso por pura e autêntica teimosia. E no final das contas, convenhamos: não há algoritmo no mundo que substitua o calor de um abraço de verdade e um beijo bem pegado.
Desconecte um pouco. O amor real está esperando por você lá fora, com defeitos e tudo. E, caso você esteja “enrolado” com uma IA, procure ajuda psicológica.
Você merece viver o melhor da vida. Até a próxima consulta.
* Tatiane Scotta, psicóloga, sexóloga e palestrante