Segunda-feira, 17 de junho de 2024

Agricultores gaúchos relatam perda de animais e da safra

As mãos calejadas pelo trabalho na terra secam as lágrimas de Nair Finn, de 66 anos, agricultora do Vale do Caí, no Rio Grande do Sul. A alguns quilômetros dali, Geraldo Maders, de 77 anos, produtor rural do Vale do Taquari, faz o mesmo. Em comum, além do gesto e das lágrimas, os gaúchos carregam uma história de gerações na lida no campo e a tristeza de verem tudo destruído pelas enchentes que atingiram o Estado.

As famílias, da zona rural dos municípios de Estrela e Caxias do Sul são responsáveis por abastecer escolas, hospitais e mercados com seus produtos, os pequenos agricultores viram suas plantações serem devastadas pelas águas dos rios ou apodrecerem no pé devido à chuva torrencial.

Nair Finn vive e planta em uma pequena propriedade em Linha Sebastopol, às margens do Rio Caí, no município de Caxias do Sul, na Serra Gaúcha. Desde que se conhece por gente, viu mandiocas, vagens, alfaces, acelgas, espinafres nascerem das mãos de sua família. No início do mês, quando as chuvas caíram sobre a serra, desbarrancando morros e sobrecarregando os rios, ela e o marido, Clério, saíram às pressas de casa durante a madrugada, levando o que podiam dentro do caminhão. Bem mais valioso dos Finn, a terra fértil, ficou sob as águas.

A Cooperativa de Agricultores e Agroindústrias Familiares de Caxias do Sul (CAAF) estima que 90% da produção da região tenha sido perdida. Com isso, a previsão é de que esses pequenos produtores sofram com a falta de renda por até quatro meses.

A agricultura familiar é responsável por abastecer pelo menos 205 escolas da Serra Gaúcha e da região metropolitana de Porto Alegre. Além disso, esses produtores também vendem alimentos para a merenda de outros Estados, como São Paulo e Paraná.

Quando as águas baixaram e a gravidade da situação foi atenuando, viram parte da roça destruída. Todas as beterrabas prestes a serem colhidas foram rio abaixo, assim como outros legumes e verduras cultivados pela família. Considerando equipamentos usados no cultivo e a perda da safra, estimam um prejuízo de cerca de R$ 50 mil.

“Não é um dia, um ano de trabalho. São anos dedicados a deixar a propriedade do jeito que estava. Aí chegar de manhã cedo e ver que a força da natureza levou tudo embora… O cara pensa às vezes em desistir. A renda total nossa é só essa. Só dependemos da agricultura familiar. Meu bisavô, meu avô, meu pai e eu trabalhamos com isso. É a quarta geração”, conta Jeferson Seefeld, 32 anos.

O governo federal anunciou um crédito de R$ 1 bilhão para a agricultura familiar. Com isso, os pequenos produtores que participam do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) terão direito a refinanciamentos de até 120 meses, com carência de 36 meses. Essas famílias estarão submetidas a uma taxa de 0% de juro, ou seja, o valor pago será o mesmo emprestado, sem acréscimo.

Em outra parte do Estado, na zona rural do município de Estrela, no Vale do Taquari, o desânimo tomou conta dos agricultores. Não tinha como ser diferente. A paisagem mudou drasticamente desde que o rio desrespeitou sua própria curva e invadiu celeiros e plantações arrastando consigo alimentos e animais. As cenas do desterro ainda estão na cabeça de José Luís Mallmann, 67 anos.

“As novilhas saíram nadando. Uma começou a nadar em volta da casa e desapareceu, morreu. Isso dói”, lembra.

José tinha 23 vacas e perdeu mais da metade. Ele decidiu vender as que sobraram para um produtor cuja propriedade é numa região mais alta. Com isso, o negócio que sustentou seus filhos deixa de existir. Agora, ele pretende se dedicar somente à produção de grãos.

De acordo com a Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar (Fetag-RS), mais da metade dos produtores de leite do Estado foram afetados de alguma forma pela chuva, causando uma redução de 15% no volume de leite por conta da dificuldade de captação.

De acordo com o Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, o tamanho do impacto das chuvas na atividade ainda está sendo mensurado pela pasta, já que ainda há muitas áreas alagadas.

A pasta afirmou que todas as dívidas de crédito rural foram suspensas por 105 dias em municípios com decretação de emergência ou calamidade pública. O governo também editou uma portaria para permitir por 90 dias a comercialização de produtos de origem animal para outros Estados.

 

 

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