Segunda-feira, 27 de julho de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 27 de julho de 2026
Você sabe como é a dor de uma pessoa negra após ser vítima de racismo, ou então a dor de quem acabou de perder um filho?
A primeira pergunta me foi feita durante uma conversa sobre racismo. Era, na verdade, uma pergunta retórica. Não importava a resposta. O objetivo era afirmar que ninguém poderia compreender o sofrimento de quem nunca viveu aquela realidade.
Eu respondi que não. De fato, não sei, não em sua plenitude. Mas é importante lembrar que cada indivíduo reage de uma maneira. Alguns sentem mais do que outros, principalmente de acordo com sua condição social.
Também me dei conta de que ninguém conhece completamente a dor de ninguém. Dor não é troféu. São experiências que muitas vezes nos ajudam a formar o caráter ou nos ensinam a encarar a vida de frente, sem medo ou culpa.
Só quem perdeu um filho sabe o vazio que isso provoca. Só quem enterrou a própria mãe conhece aquele vazio silencioso que fica dentro da alma. Só quem sofreu preconceito pela cor da pele sabe como isso machuca.
Da mesma forma, apenas quem foi humilhado por ser pobre, por ter uma deficiência física, por causa da religião ou por qualquer outra condição conhece o peso dessas experiências.
Cada pessoa carrega uma dor que lhe pertence. Mas isso não significa que sejamos incapazes de compreender uns aos outros. Existe uma palavra para isso: empatia…
Felizmente, nenhum de nós passa por todas as dores do mundo. Minha mãe, certa vez, me disse que Deus nunca nos dá um fardo maior do que aquele que podemos carregar.
Muitas vezes, o preconceito vem de dentro de nós mesmos, da nossa insegurança sobre quem somos e do papel que temos neste mundo.
Esse pensamento fez com que eu me lembrasse de um experimento psicológico bastante conhecido. Algumas mulheres receberam uma maquiagem que simulava uma enorme cicatriz no rosto. Antes de entrarem em um shopping, os pesquisadores que acompanhavam o experimento disseram que fariam apenas um último retoque.
Na verdade, removeram completamente a falsa cicatriz, sem que elas percebessem. Elas atravessaram o corredor com o rosto perfeitamente normal. Ao final, todas relataram praticamente a mesma experiência.
Disseram que sentiram olhares de desprezo, de nojo e de discriminação por causa da deformidade que acreditavam carregar. O detalhe é que ela já não existia…
O experimento não prova que o preconceito seja imaginário. Pelo contrário. Ele apenas demonstra que nossas experiências e a forma como enxergamos o mundo também influenciam a maneira como interpretamos os olhares das pessoas.
Quem já foi profundamente ferido passa a enxergar o mundo através dessas cicatrizes invisíveis. Talvez, por isso, vivamos uma época em que tantas pessoas acreditam que sua dor é incomparável.
Não concordo… As dores podem ter causas diferentes, intensidades diferentes e consequências diferentes, e cada um pode reagir à sua maneira. Mas continuam sendo dores.
O mundo está repleto delas… Há o negro discriminado por sua cor. O branco miserável humilhado por sua pobreza. O cadeirante que enfrenta obstáculos todos os dias. O cristão perseguido em alguns países simplesmente por professar sua fé. O umbandista, alvo de intolerância religiosa. A pessoa com deficiência intelectual. O jovem ridicularizado pela aparência. O idoso abandonado. A mãe que perdeu um filho. O filho que perdeu a mãe.
Quem teria o direito de afirmar que uma dessas dores vale mais do que outra?
Durante aquela mesma conversa, apresentei um exemplo a um homem negro que acompanhava o debate. Perguntei a ele: se seu filho estivesse entre a vida e a morte e você pudesse escolher entre dois médicos, um recém-formado que ingressou por um critério de reserva de vagas e outro selecionado exclusivamente pelo mérito técnico, qual escolheria?
A resposta demorou a vir… Minha intenção não era discutir estatísticas nem desmerecer a capacidade de ninguém.
Era lembrar que, em profissões nas quais vidas dependem da competência, o mérito precisa continuar sendo um valor inegociável. A verdadeira inclusão não deve diminuir a excelência, mas criar condições para que todos possam alcançá-la.
No entanto, aquela conversa me deixou pensando em algo muito maior do que políticas públicas. Ela me fez refletir sobre nossa tendência de acreditar que o nosso sofrimento ocupa um lugar especial no universo.
Talvez, seja esse o maior erro… Enquanto competimos para provar quem sofre mais, esquecemos que todos carregam suas próprias batalhas invisíveis. Todos…
O sofrimento não precisa disputar espaço. Quando aprendemos a respeitar a dor do outro sem diminuir a nossa, descobrimos que a empatia é muito maior do que qualquer diferença ou dor que nos separe.
E você, qual é a sua dor?
* Fabio L. Borges, jornalista, cronista e poeta gaúcho