Segunda-feira, 27 de julho de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 27 de julho de 2026
A negativa do governo brasileiro aos pedidos de visto de dois integrantes do Departamento de Estado dos Estados Unidos provocou uma rápida reação de Washington e ampliou a tensão diplomática entre os dois países em meio à corrida presidencial brasileira. O Departamento de Estado negou que a missão tivesse qualquer objetivo de interferir nas eleições de outubro e classificou como “uma mentira infundada” a interpretação de que a viagem buscaria colocar em dúvida a credibilidade do sistema eleitoral brasileiro.
O caso veio à tona após o jornal norte-americano The Washington Post revelar que dois funcionários do governo Donald Trump planejavam viajar ao Brasil para discutir temas relacionados à integridade eleitoral, liberdade religiosa e liberdade de expressão.
Os pedidos de visto foram rejeitados pelo Ministério das Relações Exteriores na última sexta-feira (24). A delegação seria formada por Riley M. Barnes, secretário-assistente do Escritório de Democracia, Direitos Humanos e Trabalho do Departamento de Estado, e Samuel Samson, subsecretário-assistente da mesma área. Ambos desembarcariam em Brasília entre os dias 27 e 30 de julho para reuniões com integrantes do governo, representantes religiosos e membros da sociedade civil.
Após a repercussão do episódio, um porta-voz do Departamento de Estado afirmou que a missão fazia parte de uma agenda diplomática rotineira desenvolvida pelo órgão em diversos países e rejeitou qualquer acusação de ingerência nos assuntos internos do Brasil.
“Qualquer insinuação de que se trataria de uma ‘manobra’ para minar as eleições de uma nação democrática é uma mentira infundada. Trata-se de uma visita de rotina, em conformidade com o mandato estatutário do Departamento de Estado”, informou o governo norte-americano em nota.
Apesar da manifestação oficial, integrantes do governo Lula mantiveram a avaliação de que a viagem poderia representar uma tentativa de influenciar o processo eleitoral brasileiro. Segundo autoridades, a decisão de negar os vistos foi tomada com base em informações que apontavam para uma possível estratégia de questionar a lisura das eleições e fortalecer discursos já defendidos por aliados do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), principal adversário de Lula na disputa presidencial.
O episódio ocorre em um momento de deterioração das relações entre Brasília e Washington. Nas últimas semanas, os dois governos acumularam divergências em diferentes frentes. A administração Trump elevou tarifas sobre milhares de produtos brasileiros, classificou facções criminosas brasileiras como organizações terroristas estrangeiras e fez críticas públicas à condução de investigações envolvendo aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro. Em resposta, o Palácio do Planalto passou a acusar os Estados Unidos de adotar medidas com potencial de interferir no cenário político nacional.
A recusa dos vistos também ganhou repercussão internacional por ocorrer poucos meses antes das eleições brasileiras. Para especialistas em relações internacionais, a decisão do Itamaraty representa uma resposta incomum entre dois países historicamente próximos e evidencia o grau de desconfiança que passou a marcar a relação bilateral desde o retorno de Donald Trump à Casa Branca.
Embora Washington tenha reiterado que a missão tinha caráter técnico e diplomático, o governo brasileiro considera encerrado o assunto e não sinalizou qualquer possibilidade de rever a decisão. Até o momento, também não há indicação de que os Estados Unidos pretendam solicitar novos vistos para os dois funcionários ou enviar outra delegação ao Brasil antes do início oficial da campanha eleitoral.