Domingo, 17 de maio de 2026

Banco Master: novas omissões, concorrência e prisão do pai põem em xeque delação premiada de Vorcaro

Dois meses após firmar termo de confidencialidade para negociar um acordo de delação premiada, o banqueiro Daniel Vorcaro, do Master, enfrenta dificuldades para convencer autoridades de que está disposto a cooperar. Diante do avanço das investigações e da indicação de outros alvos de que também querem entregar o que sabem em troca de benefícios, advogados e integrantes da Polícia Federal (PF) e da Procuradoria-Geral da República (PGR) avaliam que ele está pressionado a apresentar uma nova proposta, caso queira mesmo ter um alívio da pena em caso de condenação. A primeira, entregue por sua defesa em 5 de maio, foi considerada insuficiente.

Os investigadores entendem que o material extraído dos celulares do próprio Vorcaro, de seu cunhado Fabiano Zettel e do ex-operador Phillipi Mourão, o Sicário, tem muito mais elementos do que os relatos apresentados no rascunho de delação até agora. Vorcaro não citou, por exemplo, a suposta mesada paga ao senador Ciro Nogueira (PP-PI), em valores que chegavam a R$ 500 mil, como mostrou a colunista Malu Gaspar, do GLOBO.

Vantagens indevidas
A investigação mostrou uma relação de proximidade do banqueiro com o parlamentar, apontado pela PF como “destinatário central” de favores financeiros pagos pelo dono do Master. A lista inclui uso de um imóvel em São Paulo e o custeio de viagens internacionais, como hospedagens, restaurantes e voos privados. Procurada, a defesa do executivo afirmou que não iria comentar. Em nota, a defesa de Ciro afirmou que “repudia qualquer ilação de ilicitude sobre suas condutas, especialmente em sua atuação parlamentar”.

Outro fato que ficou de fora foram as cobranças feitas pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, para financiar um filme biográfico sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, cujo valor total poderia chegar a R$ 124 milhões. O site Intercept Brasil revelou trocas de mensagens do parlamentar combinando encontros com o banqueiro. O filho do ex-presidente admitiu as conversas, mas nega que representem irregularidades.

Tanto os favores a Ciro Nogueira quanto a relação com Flávio foram revelados em momentos posteriores à apresentação da primeira proposta pela defesa do banqueiro. Para investigadores, conforme o tempo passa e as investigações avançam, mais difícil será para Vorcaro conseguir um desfecho favorável.

Um acordo de colaboração premiada é um meio de obtenção de provas e prevê, entre outros pontos, a confissão de crimes e o pagamento de multa. Em troca, o investigado obtém benefícios, como redução de pena. Vorcaro havia feito dois pedidos aos investigadores para iniciar as tratativas: ser transferido do presídio federal de Brasília e a blindagem a seus familiares.

A trégua, porém, não durou muito. Após ser levado para uma cela na Superintendência da PF em Brasília enquanto negociava o acordo, em 23 de março, Vorcaro agora pode ter que voltar à penitenciária federal, onde o regime é mais rígido. Um pedido feito pela corporação está na mesa do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, relator do caso na Corte, a quem cabe autorizar a transferência.

Em outro sinal de que um acordo está distante, a PF prendeu na semana passada Henrique Vorcaro, pai do banqueiro, suspeito de ser operador financeiro da “Turma”, o braço armado da suposta organização criminosa comandada pelo dono do banco Master. Segundo as investigações, Henrique também atuava como “demandante e beneficiário” do grupo suspeito de intimidar adversários de Daniel Vorcaro.

A PF aponta ainda que Vorcaro utilizou uma conta do pai para ocultar R$ 2,2 bilhões de credores e vítimas das fraudes financeiras. Procurada, a defesa de Henrique diz considerar a prisão “grave” e “desnecessária”.

Um acordo de colaboração que também envolva a família não seria novidade para a PF. Delator na ação que condenou o ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe, o tenente-coronel Mauro Cid incluiu proteção jurídica ao pai, à mulher e à filha em troca de contar o que sabia sobre a trama golpista.

Além do avanço das investigações, autoridades envolvidas nas negociações com Vorcaro citam outro fator que pressiona o banqueiro a entregar mais. Enquanto sua colaboração está parada, outros investigados também se mostraram dispostos a delatar, gerando uma corrida entre as defesas para saber quem consegue fechar um acordo primeiro. A avaliação de investigadores é que uma delação não exclui outras, mas que quem chegar depois precisará apresentar novidades.

Uma das tratativas mais avançadas é a do ex-presidente do Banco de Brasília (BRB) Paulo Henrique Costa, preso há um mês após a PF apontar suspeita de que ele negociou o recebimento de propina de R$ 146 milhões em imóveis em troca de beneficiar o Banco Master em operações financeiras fraudulentas. Pessoas a par das negociações afirmam que um acordo de confidencialidade, etapa que antecede formalmente a apresentação da colaboração premiada, deve ser assinado nesta semana. A expectativa é que os anexos da delação sejam entregues em junho.

Interlocutores envolvidos nas tratativas avaliam que uma eventual colaboração do ex-presidente do BRB não inviabiliza a de Vorcaro, já que os dois teriam conhecimentos distintos sobre o funcionamento do esquema investigado. Com informações do portal O Globo.

Compartilhe esta notícia:

Voltar Todas de Política

Aliados de Vorcaro dentro da Polícia Federal intimidavam e forneciam dados sigilosos
Pode te interessar
Baixe o app da TV Pampa App Store Google Play