Quarta-feira, 22 de abril de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 21 de abril de 2026
Documentos obtidos pela Polícia Federal mostram que o Banco Master conseguiu embutir um ágio de R$ 2,4 bilhões na venda de carteiras para o Banco de Brasília (BRB) realizada entre julho de 2024 e janeiro de 2025 – estratégia usada para cobrir o rombo nas contas da instituição de Daniel Vorcaro enquanto a proposta de venda ao banco público de Brasília não havia sido formalizada.
Como revelou o Estadão, diálogos registrados no celular de Vorcaro citavam a necessidade de aportes do BRB para cobrir o caixa do Master ao longo do ano de 2024 e indicaram que o banco não teria dinheiro em caixa para honrar seus compromissos caso não recebesse recursos do banco público de Brasília. A PF prendeu na última quinta-feira o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa, sob suspeita de ter recebido propina para favorecer o Master. A defesa do executivo não quis se manifestar. Procurado, o BRB não se pronunciou até a noite de ontem.
A Operação Compliance Zero, da PF, apura fraudes na fabricação de falsas carteiras de crédito consignado pelo Master de janeiro a maio de 2025 e a venda desses ativos ao BRB, que pagou R$ 12,2 bilhões por esses “ativos”. Mas as tabelas e documentos apreendidos pela PF mostram que o BRB já havia injetado pelo menos R$ 8,4 bilhões no Master nos seis meses anteriores, entre julho e dezembro de 2024.
Ainda não foram detectados indícios de que os ativos vendidos nesse período também eram falsos, mas o ágio obtido pelo Master indica que o banco público pode ter pago cifras maiores do que efetivamente valiam essas carteiras. De acordo com as investigações da PF, foi a partir de janeiro que o Master precisou fabricar carteiras falsas de crédito para continuar recebendo pagamentos do BRB e manter o banco funcionando.
Tabelas
A PF extraiu dos celulares de diretores do Master diversas tabelas com a contabilidade das operações realizadas com o BRB e que explicam os valores envolvidos. Um desses documentos foi enviado por WhatsApp pelo então superintendente executivo de tesouraria do banco, Alberto Félix.
O documento trazia um balanço das operações com o BRB de julho de 2024 até o final de janeiro de 2025. O controle interno do Master registrou a venda de seis tipos diferentes de ativos para o BRB nesse período: carteiras de crédito consignado; dois tipos diferentes de cédulas de crédito bancário (CCB); certificados de depósito interbancário (CDI); certificados de recebíveis imobiliários (CRI); e créditos do Will Bank, instituição à época vinculada ao Master.
A PF extraiu dos celulares de diretores do Master diversas tabelas com o registro das operações
O valor de contabilidade de todos esses ativos vendidos pelo Master ao BRB era de R$ 7,5 bilhões. A tabela registrou que o Master conseguiu vendê-los ao banco público de Brasília por R$ 9,9 bilhões, um ágio de 32% no negócio.
Isso significa que o banco de Vorcaro conseguiu embutir um “lucro” de R$ 2,4 bilhões nessa operação. As tabelas registram que algumas carteiras de crédito consignado vendidas ao BRB tiveram um ágio de até 93% na operação. Nesse caso mais extremo, o Master repassou uma carteira de consignado com valor contábil de R$ 20,3 milhões por R$ 39,1 milhões.
Pelos registros dos celulares, Alberto Félix era um dos funcionários do Master responsáveis por negociar com o BRB a cessão dos ativos. Em 17 de julho, ele afirmou em um diálogo: “Estou em call com o brb. (…) Estamos definindo o contrato de cessão aqui, pra poder formalizar”.
Outro lado
A defesa de Alberto Félix afirmou que ele não tinha poder de decisão no banco. “Alberto Félix, na qualidade de funcionário de tesouraria, tinha, dentre outras incumbências, a de reportar aos seus superiores as transações feitas do Banco Master não só com o BRB como com outras instituições financeiras. Reforça ainda que nunca foi diretor e não tinha poder decisório dentro do Banco Master e que, portanto, seus contatos com funcionários do BRB eram tão somente para tratar de questões formais para efetivar os instrumentos que haviam sido negociados por outras pessoas”, disse em nota a advogada Maria Fernanda Ávila.
As conversas já reveladas pelo Estadão mostram que o Banco Master recorreu a aportes do BRB pelo menos desde agosto de 2024 para poder cobrir sua crise de liquidez. O anúncio da oferta de compra do Master pelo banco estatal controlado pelo governo do Distrito Federal foi feito em março de 2025. (Com informações de O Estado de S. Paulo)