Sábado, 27 de novembro de 2021

Bolsonaro retira condecorações de pesquisador contrário à cloroquina e de diretora da Fiocruz

O presidente Jair Bolsonaro retirou nesta sexta (5) a Ordem Nacional do Mérito Científico concedida na quinta (4) aos pesquisadores Marcus Vinícius Guimarães de Lacerda e Adele Schwartz Benkazen. A decisão foi publicada no “Diário Oficial da União”.

A ordem foi criada em 1993 para “condecorar personalidades nacionais e estrangeiras que se distinguiram por suas relevantes contribuições prestadas à Ciência, à Tecnologia e à Inovação.”

Pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Marcus Vinícius Guimarães de Lacerda coordenou o estudo no Amazonas que concluiu de forma contrária ao uso da cloroquina para a Covid-19. Lacerda também se manifestou abertamente contra o uso do medicamento e foi vítima de ameaças.

Já Adele Benzaken é atual diretora da Fiocruz Amazônia. Ela chefiou a área de enfrentamento ao HIV/Aids no Ministério da Saúde durante os governos Dilma Rousseff e Michel Temer, mas foi demitida do cargo no início da gestão Jair Bolsonaro.

Bolsonaro costuma defender o uso da cloroquina contra a Covid, mas estudos científicos já comprovaram a ineficácia do medicamento para a doença.

Além disso, a Organização Mundial de Saúde (OMS) também já reconheceu a ineficácia da cloroquina; a Associação Médica Brasileira (AMB) diz que o uso do medicamento para Covid deve ser banido; e a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), que a cloroquina não tem efeito para a doença.

No ano passado, especialistas de diversas universidades brasileiras, entre eles Lacerda, chegaram a divulgar uma nota na qual afirmaram que o governo federal não pode submeter a população ao “risco adicional de um tratamento sem garantias de segurança e eficácia”.

No mês passado, a CPI da Covid no Senado aprovou o relatório final. Entre outro pontos, a comissão concluiu que o governo fez — e segue fazendo — propaganda de medicamentos ineficazes para a Covid.

Epidemiologista recusa condecoração

Segundo a Associação Brasileira de Saúde Coletiva, o epidemiologista Cesar Victora rejeitou a condecoração dada por Bolsonaro.

Em carta publicada pela associação, Victora afirma que a condecoração, embora represente “importante reconhecimento”, foi concedida por um governo que “não apenas ignora, mas ativamente boicota as recomendações da epidemiologia e da saúde coletiva”.

“Enquanto cientista, não consigo compactuar com a forma pela qual o negacionismo em geral, as perseguições a colegas cientistas e em especial os recentes cortes nos orçamentos federais para a ciência têm sido utilizados como ferramentas para retroceder os importantes progressos alcançados pela comunidade científica brasileira nas últimas décadas”, escreveu Victora na carta divulgada pela associação.

Entidades condenam retirada

Em nota divulgada nesta sexta, a Academia Brasileira de Ciências condenou a decisão do governo Jair Bolsonaro de retirar a condecoração de Marcus Vinícius Guimarães de Lacerda e Adele Benzaken.

No texto (leia íntegra abaixo), intitulado “A Ordem Nacional do Mérito Científico não pode ser objeto de expurgos políticos”, a entidade diz que o ato é “inédito no país e típico de regimes autoritários” e “mais um ataque à ciência, à inovação e à inteligência do país”.

“O presidente da República, como Grão-Mestre da Ordem, deveria preservar a história e o prestígio que a Ordem traz para a ciência no Brasil. Mas não é isso que a recente atitude do Presidente demonstra. É inaceitável que se pratique o expurgo de cientistas que têm contribuído, com integridade e competência, para o desenvolvimento nacional e a saúde da população. Protestamos, como cientistas e cidadãos, contra essa escalada autoritária, que representa um ataque frontal ao espírito da Ordem Nacional do Mérito Científico. E reivindicamos o retorno à lista dos nomes arbitrariamente retirados.”, diz o texto.

Também em nota, a Fiocruz – onde trabalham os dois cientistas que tiveram as homenagens canceladas – defendeu o trabalho de seus pesquisadores.

“A instituição vem atuando em diversas frentes, com destaque para o enfrentamento da pandemia no país, e entende que todos os resultados alcançados até esse momento são fruto do incansável trabalho de seus pesquisadores na busca de evidências científicas e respostas e soluções aos problemas de saúde pública que o Brasil enfrenta”, diz a nota.

“A Fundação apoia incondicionalmente a ciência e seu corpo de pesquisadores e reafirma seu compromisso com a missão de produzir, disseminar e compartilhar conhecimentos e tecnologias voltados para o fortalecimento e a consolidação do Sistema Único de Saúde (SUS) e para a promoção da saúde e da qualidade de vida da população brasileira.”

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