Segunda-feira, 29 de junho de 2026

Brasil bate recorde de aprovação de pesticidas, mas cresce número de suspensões e cancelamentos

 

O Brasil encerrou 2025 com 503 novos pesticidas aprovados pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), o maior número já registrado em um único ano. Em 2026, o ritmo continua acelerado, consolidando o país como líder mundial em registros de defensivos agrícolas. Ao mesmo tempo, cresce o número de desistências, suspensões e cancelamentos, revelando um cenário de tensão entre produtividade e segurança ambiental.

Desde 2019, quando foram liberados 474 produtos, o Brasil vem batendo recordes sucessivos. Segundo a FAO, o país responde por cerca de 20% do consumo mundial de pesticidas, reforçando a relevância do tema para o agronegócio e para a saúde pública. Em 2024, o Ibama registrou a comercialização de 826 mil toneladas de agrotóxicos, com destaque para o glifosato, que sozinho respondeu por 231,9 mil toneladas. Mato Grosso liderou o consumo, com mais de 205 mil toneladas aplicadas.

Apesar da velocidade nas aprovações, órgãos como Anvisa e Ibama intensificaram análises de risco. Em 2025, dezenas de moléculas foram suspensas ou canceladas por apresentarem potenciais danos à saúde humana ou ao meio ambiente. “Há uma contradição: enquanto se aprova em ritmo acelerado, também se suspende em número crescente. Isso mostra que o filtro regulatório está funcionando, mas gera insegurança para o produtor”, afirma o pesquisador da Embrapa, João Pedro Fernandes.

Produtores relatam preocupação com a instabilidade. “A gente investe em determinada molécula e, de repente, ela é suspensa. Isso gera custo e insegurança”, diz o agricultor gaúcho Carlos Schneider, de Cruz Alta (RS). Por outro lado, entidades de saúde defendem que a suspensão é necessária. “O Brasil não pode ser visto como mercado de descarte de moléculas proibidas em outros países”, alerta a toxicologista Ana Paula Ribeiro.

A União Europeia aprovou apenas 50 novos pesticidas em 2025, número muito inferior ao brasileiro. O bloco endureceu regras de importação, exigindo rastreabilidade e limites mais rígidos de resíduos químicos. Exportadores temem perder espaço se o Brasil não alinhar seus padrões. “Se não houver convergência regulatória, corremos risco de barreiras comerciais”, avalia o engenheiro agrônomo Marcelo Lima.

Estudo da Universidade Federal de Viçosa (UFV) mostra que cada aumento de R$10 por hectare em gastos com pesticidas gera R$7,71 por hectare em valor bruto da produção, mas também eleva em 13% os casos de intoxicação. O setor movimenta bilhões de reais por ano e é considerado estratégico para manter o Brasil como maior exportador mundial de soja e um dos líderes em milho e algodão. Especialistas apontam três frentes essenciais para o futuro: ampliar o uso de bioinsumos, garantir maior transparência regulatória e investir em capacitação técnica para uso responsável dos pesticidas. O recorde de aprovações mostra a força do agronegócio brasileiro, mas o aumento de suspensões e cancelamentos revela que o país não pode ignorar riscos à saúde e ao meio ambiente. O desafio é equilibrar produtividade e sustentabilidade, garantindo competitividade sem comprometer credibilidade internacional.

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