Terça-feira, 25 de junho de 2024

Buenos Aires está cheia de casas vazias, mas ninguém consegue alugar

A grave crise pela qual passa a Argentina nos últimos anos influencia em todos os setores da economia do país vizinho. A inflação de três dígitos, as regulamentações rígidas e o influxo de estrangeiros com dólares afetam os aluguéis no mercado imobiliário de Buenos Aires, um dos alvos do “superdecreto” do recém-empossado presidente Javier Milei.

Com isso, os proprietários deixam uma em cada sete moradias vazias na cidade, em vez alugá-las para moradores locais e receber em pesos. A inflação anual argentina chegou a 160,9% em novembro, tornando as finanças disfuncionais.

Num claro sinal das perturbações causadas pela inflação, os proprietários ficam com dificuldades para definir e cobrar os aluguéis. Uma média mensal de 228 mil das pouco mais de 1,5 milhão de moradias da capital permaneceram vazias no período de 12 meses até fevereiro.

Os dados da autoridade reguladora do setor de energia da Argentina revelam que essas moradias consumiram menos eletricidade do que a quantidade necessária para alimentar uma geladeira, o que é um sinal indireto do número de moradias vagas. A cifra, que antecede o grande aumento recente da inflação, cresceu 14% em relação ao mesmo período do ano anterior e 57% desde 2018.

Mesmo com essas moradias vazias, os moradores de Buenos Aires estão tendo dificuldades para achar lugares para morar. Ativistas dizem que é a pior crise habitacional da cidade em 30 anos. O novo presidente, um autodenominado “anarcocapitalista” que despreza a maior parte das regulamentações, aboliu a lei argentina de locações. Aprovada em 2020 e atualizada em outubro, a norma estabelecia um período mínimo de três anos para os contratos e permite aos proprietários dos imóveis elevar os preços apenas duas vezes por ano. Com a revogação, contratos assinados a partir de agora serão regidos pelo Código Civil e Comercial, de 2015, com algumas modificações.

Embora os sindicatos dos inquilinos afirmem que a legislação protegia os locatários, agentes imobiliários dizem que ela deixa os locadores relutantes em firmar contratos no mercado de locação formal por causa da inflação.

O Zonaprop, o maior site imobiliário da Argentina, informou que 70% dos aluguéis de longo prazo estão estabelecidos em dólares, comparado a 27% três anos atrás.

Parte do problema para os moradores locais é uma multidão crescente de trabalhadores remotos e turistas dos EUA, Europa e países vizinhos, que estão aproveitando o estilo de vida barato disponível para quem tem acesso a dólares para vender no paralelo.

Para aproveitar os dólares dos estrangeiros, os proprietários investem cada vez mais em “bons móveis, Wi-Fi rápido e máquinas de café”, diz Maximiliano Götz, agente especializado em aluguéis de curta duração.

Gervasio Muñoz, porta-voz de um sindicato de locatários que fez lobby pela lei dos aluguéis, afirma que a raiz do problema não é a regulação, e sim a consolidação das propriedades nas mãos de poucos donos e a falta de regulamentação no mercado temporário. Entre 2006 e 2020, a proporção de moradores de Buenos Aires que tinham casa própria encolheu 7,1 pontos percentuais, para 53,5%.

Muñoz acredita que o plano de Milei de revogar a lei vai piorar a situação para os inquilinos. Ele afirma: “O plano deles é institucionalizar o ‘cada um por si’”.

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