Quarta-feira, 09 de setembro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 9 de setembro de 2026
O chanceler alemão, Friedrich Merz, acusou o partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AfD) de defender uma “limpeza étnica” com sua proposta de “remigração”, em seu primeiro confronto público com a legenda desde a vitória histórica da sigla nas eleições de domingo na Saxônia-Anhalt. Em debate no Bundestag, a Câmara Baixa do Parlamento, o líder atacou a aproximação da AfD com a Rússia e afirmou que uma política de deportações em massa colocaria em risco setores fundamentais da maior economia da Europa. Pouco depois, o governo também anunciou o adiamento de uma ligação telefônica que estava prevista para ocorrer entre Merz e o presidente americano, Donald Trump, nessa quarta-feira (09).
— O termo “remigração” nada mais é do que um sinônimo de limpeza étnica com base na origem e na cor da pele — afirmou Merz, sob aplausos de parlamentares. — O que define vocês é o desprezo por nossas instituições democráticas e a constante desqualificação pessoal dos representantes do nosso Estado. Essa é a marca da política de vocês.
O adiamento do telefonema foi anunciado um dia após Trump parabenizar a AfD pela vitória nas eleições. A ligação estava na agenda de Merz por ocasião do 25º aniversário dos atentados do 11 de Setembro. Questionado sobre o motivo da decisão, o porta-voz do governo, Stefan Kornelius, se recusou a dar detalhes, mas afirmou que não se tratava de um “conflito de agenda” e que “uma nova data não foi definida”.
— [O chanceler] sempre se opôs, em termos gerais, a interferir ou comentar sobre a situação política interna, particularmente no que diz respeito a eleições — disse Kornelius à imprensa.
Em publicação nas redes sociais na terça-feira, Trump celebrou o que chamou de “grande noite” do partido e atribuiu seu avanço às “regras de imigração absolutamente horríveis” da Alemanha. “MGGA!!!”, acrescentou, em uma adaptação para a Alemanha de seu slogan MAGA, sigla em inglês para “Tornar a América Grande Novamente”.
A AfD obteve quase 44% dos votos na Saxônia-Anhalt, seu melhor resultado no estado e o desempenho mais forte de um partido de extrema direita em uma eleição estadual alemã desde a a Segunda Guerra Mundial. A legenda ficou a três cadeiras da maioria absoluta, enquanto a União Democrata Cristã (CDU), de Merz, que governa a região desde 2002, obteve 17% dos votos e viu seu apoio cair pela metade. O chanceler reconheceu que sua própria impopularidade contribuiu para o resultado de seu partido, mas minimizou a vitória da sigla adversária.
— Cinquenta e seis por cento dos eleitores da Saxônia-Anhalt não votaram em vocês. Em nenhum lugar da Alemanha vocês conseguirão maioria. Vocês são e continuarão sendo uma força destrutiva — disse.
O principal candidato da AfD no estado, Ulrich Siegmund, busca agora apoio entre integrantes de outras legendas para ser eleito chefe do governo estadual. Merz o acusou de “fraude eleitoral” por romper uma promessa de campanha de não tentar governar caso não conquistasse maioria absoluta. A AfD é classificada como extremista de direita pelo serviço de inteligência doméstico alemão em partes de sua estrutura, e a vitória reacendeu discussões sobre como os demais partidos — e mesmo como os demais países na Europa — devem lidar com seu avanço.
Política migratória
Uma das principais propostas da AfD é a chamada “remigração”, termo associado à expulsão em larga escala de estrangeiros. Embora a plataforma oficial da legenda se concentre na deportação de migrantes que não obtenham asilo ou cometam crimes, o serviço de inteligência doméstico afirma que diversos representantes do partido defendem expulsões muito mais abrangentes. Na Saxônia-Anhalt, a sigla discutiu a criação de uma “força-tarefa de deportação” financiada pelo estado, além de mudanças no funcionalismo público e no sistema educacional para eliminar o que classifica como “doutrinação de esquerda”.
Merz afirmou que uma política de expulsões em larga escala afetaria milhões de pessoas de origem migrante que trabalham no país e comprometeria o funcionamento de setores inteiros da economia. O chanceler, que tem endurecido a própria política migratória na tentativa de recuperar eleitores da AfD, reconheceu que a Alemanha ainda enfrenta “problemas na área da migração” e defendeu o aumento das deportações de pessoas sem direito de permanecer no país.
— Ainda temos muitas pessoas na Alemanha que não deveriam ter residência permanente. Há um consenso na coalizão de que precisamos deportar mais pessoas — afirmou. — Mas fazemos uma distinção cuidadosa entre aqueles que trabalham na Alemanha, que contribuem para nossa prosperidade e que são bem-vindos aqui, e aqueles que não têm residência permanente na Alemanha e que precisam deixar nosso país. Ao contrário de vocês, temos muito cuidado ao fazer essa distinção. Com informações do portal O Globo.